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PAINEL DE IDEIAS

Personagens que moram entre nós

Os grandes escritores jamais se limitaram a registrar o mundo em que viviam. Procuraram compreender algo muito mais duradouro: o ser humano

por Prof Dr João Paulo Vani
Publicado em 26/06/2026 às 19:08Atualizado em 26/06/2026 às 19:14
João Paulo Vani (João Paulo Vani)
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João Paulo Vani (João Paulo Vani)
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Em meu texto anterior, ao escrever sobre Shylock, personagem de "O Mercador de Veneza", procurei refletir sobre a capacidade que certas figuras literárias possuem de atravessar séculos sem perder a força. Shakespeare escreveu sua peça há mais de quatrocentos anos, mas o debate provocado por aquele comerciante judeu continua vivo porque as questões que o cercam — preconceito, exclusão, identidade e pertencimento — continuam presentes em nossa experiência coletiva.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais os grandes livros sobrevivem ao tempo. Costumamos associar a literatura ao passado, como se os romances, contos e peças teatrais fossem apenas depósitos de épocas desaparecidas. É uma impressão compreensível, mas incompleta. Os grandes escritores jamais se limitaram a registrar o mundo em que viviam. Procuraram compreender algo muito mais duradouro: o ser humano.

Mudam as tecnologias, os regimes políticos, as formas de trabalho e os meios de comunicação. Mudam as roupas, os hábitos e os cenários. Entretanto, certas características humanas atravessam os séculos com surpreendente resistência. A vaidade continua reconhecível; a covardia continua reconhecível. A necessidade de aprovação, a precipitação nos julgamentos, a dificuldade de ouvir, a tendência à omissão e a tentação da bajulação continuam entre nós, ainda que assumam novas formas e encontrem novos ambientes para se manifestar.

É por isso que seguimos lendo autores escritos há cem, duzentos ou quatrocentos anos. Não recorremos a eles apenas para conhecer o mundo em que viveram. Recorremos a eles para compreender melhor o mundo em que vivemos. Os grandes personagens sobrevivem porque deixam de ser indivíduos e passam a representar tendências humanas permanentes. Tornam-se espelhos.

Ao longo das próximas semanas, esta coluna visitará alguns desses personagens. Não para discutir teoria literária nem para realizar exercícios de erudição, mas para observar como determinadas figuras criadas pela literatura continuam caminhando entre nós com impressionante naturalidade. Embora tenham nascido em romances, contos ou peças teatrais, elas parecem frequentar reuniões, repartições, associações, universidades, empresas, grupos de mensagens e redes sociais com desenvoltura admirável.

À primeira vista, isso pode parecer estranho. Afinal, estamos falando de personagens fictícios. Mas a literatura raramente se limita à ficção. Quando um escritor observa atentamente a natureza humana, acaba criando figuras que ultrapassam seu próprio tempo. Seus personagens envelhecem menos do que os cenários em que foram criados. Permanecem reconhecíveis porque continuam encontrando abrigo em comportamentos que atravessam gerações.

O crítico inglês Samuel Johnson observava que a verdadeira literatura revela a natureza humana em sua forma permanente. Talvez seja exatamente isso que explique a longevidade dos clássicos. Enquanto as notícias envelhecem rapidamente, os grandes personagens continuam vivos porque representam vícios, virtudes e contradições que insistem em nos acompanhar.

A literatura não serve apenas para contar histórias. Serve também para ampliar nossa capacidade de observação. Muitas vezes, abrimos um livro acreditando que encontraremos personagens imaginários. O que encontramos, na verdade, são versões reconhecíveis das pessoas com quem convivemos todos os dias. E, em algumas ocasiões menos confortáveis, versões reconhecíveis de nós mesmos.

PROF. DR. JOÃO PAULO VANI

Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados.