Painel de ideias

Patrulhas, banimentos...

De Stalin, Mussolini, Videla, Pinochet a Chaves, de Franco, Garrastazu, Stroessner a Putin criaram-se as irmandades da degola, verdugos a brandirem chibatas às esquerdas e direitas

por Romildo Sant’anna
Publicado há 18 horas
Romildo Sant’Anna (Divulgação)
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Põem-me em desalento os achaques e vetos à liberdade de opinião e lacração de pessoas com anuência de instituições, veículos de comunicação e até de artistas e pseudoartistas que, no verão passado, clamavam por democracia. Inda trago nos olhos os aziagos Certificados de Censura escrachados em cinemascope. A Ditadura instituiu o Conselho Superior de Censura motivando indagações do escritor Millôr Fernandes: “Se é de censura, como pode ser Superior?”. Ela é sorrateira, nem sempre chega de botas, mas com palavras oblíquas travestidas de autoridade e bons propósitos. E avança como a umidade traiçoeira nos muros da casa, com poderes de infiltração em varandas e quintais.

Efeito perverso é a autocensura, coleira invisível de adestrados pelo chicote do medo. Revivem o macarthismo de ontem, reacionário, puritano, a alevantar-se das tumbas e, alma penada, espalhando terror. Censura é o veneno dos sonhos, fermento dos ódios, amputação do pensamento crítico. Inesquecíveis os sinos de condenação badalados por velho cura de puída toga em ‘Cinema Paradiso’ (1989), de Giuseppe Tornatore. Em criação catártica do diretor, a união das cenas mutiladas resultou a mais solene antologia de beijos até hoje vista nos cinemas.

A censura persegue cientistas, artistas, representantes do povo e jornalistas éticos. Apaga rastros da história como maluco corretor de textos obrigando a sociedade a olvidar-se do pouco que aprendera a ler. É tumor que se alastra de noite até matar, caminho autoritário e covarde de uma só direção. Há monitoramentos e patrulhas aos costumes, à moral, sentimentos coletivos e à política pela reprovação ao que a chusma decreta como signos inconvenientes, assuntos proibidos. Melancólica época em que muito do que líamos era à luz dos calabouços. De Stalin, Mussolini, Videla, Pinochet a Chaves, de Franco, Garrastazu, Stroessner a Putin criaram-se as irmandades da degola, verdugos a brandirem chibatas às esquerdas e direitas. Apagaram-se leis do livre dizer, publicações foram vetadas por punhos engenhosos e totalitários.

Proclamados por corporações civis e chefões espúrios do judiciário, esses “censores do bem” avivam os comandos de caça a pessoas e signos. São verdugos da livre manifestação do pensamento, sentinelas opulentas em palácios ignotos. Ameaçam, desforram, sussurram em cardumes anseios opressores. Convalidam os que incendiavam edições, ultrajavam bibliotecas. Imitam figuras de ‘Fahrenheit 451’, de Ray Bradbury, transposto às telas por François Truffaut (1966). Nos dias que passam, que leituras fariam do escritor americano e do cineasta francês? Ante essa, essa sim, doença neofascista, os povos se alarmaram com a ficção premonitória de ‘1984’, de George Orwell. Punhos do Grande Irmão se erguem soberbos, decretam punições aos discordantes. Pai, afasta de mim esse cálice!

ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos