PAINEL DE IDEIAS

Para não falar de pânico

No caos social, evitar gente pode ser uma estratégia adaptativa de quem não aprendeu a agredir, a se defender ou apenas tenta se proteger da crueldade da própria espécie

por Mara Lúcia Madureira
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Mara Lúcia Madureira (Mara Lúcia Madureira)
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No mundo que nomeia coisas e categoriza sentimentos, nem tudo é patologia. Há gradações que diferenciam sentimentos meramente humanos e angústias necessárias de sofrimento e prejuízos reais para a vida. Timidez, ansiedade e fobia social diferenciam-se pela intensidade do medo, pelo grau de evitação e pelo impacto no funcionamento de uma pessoa.

O solo da mente infantil é terreno fértil, tudo o que nela se planta se colhe na juventude, idade adulta e velhice. Ambientes familiares e culturais críticos, perfeccionistas ou superprotetores, com normas sociais rígidas, comparações constantes, experiências de humilhação, críticas públicas e bullying, incluindo as redes sociais, promovem crenças de inadequação, de que erros são inaceitáveis e a associação entre exposição social e ameaça.

A timidez se traduz por inibição e desconforto diante do olhar alheio, sobretudo quando há novidade ou possibilidade de julgamento, mas não impede a ação nem causa prejuízos significativos. Um estilo de vida mais reflexivo, observador, sem postura de protagonismo imediato, não configura transtorno. É só um modo de estar no mundo.

A fobia social ocorre quando o medo extrapola os limites da prudência, causa sofrimento intenso e compromete diversas áreas do funcionamento. A preocupação excessiva em falar ou fazer algo inadequado e com o julgamento alheio, atinge níveis fisiológicos, como taquicardia, sudorese, tremor, rubor e “branco” e paralisa a ação. A expectativa de humilhação, rejeição ou exposição de falhas priva o sujeito do convívio. Não se trata apenas de medo de pessoas, mas de um sistema de previsão de ameaça social hiperdimensionado, mantido por evitação e vieses cognitivos, muitas vezes incompreendidos pelo sujeito e seu entorno.

A vulnerabilidade genética contribui para a manifestação desses quadros, porém não determina o destino. Crianças herdam traços genéticos dos pais e reproduzem modelos aprendidos no convívio familiar e social, inclusive nas redes digitais. A exposição sistemática à violência, a discursos e modelos de ódio leva à naturalização do inaceitável e à corrosão dos limites éticos que sustentam a convivência.

De tempos em tempos, a cultura evolui e retrocede, e os impulsos humanos se manifestam, ora mais contidos, ora mais instintivos. Como no movimento das marés, há ondas de contenção, alternadas com tendências a agir de modo mais primitivo e predatório. A perda de confiança entre as pessoas expõe medos primários de autopreservação e competição. Em um estado de natureza bruta, vale a lei do mais forte. Cada indivíduo é juiz e executor.

Em um mundo de governos corruptos, com ausência de figuras de autoridade autênticas, que transmitam respeito e segurança, marcado por fanatismos políticos e religiosos, a convivência humana tende ao conflito. O outro é desumanizado e percebido como objeto ou ameaça.

Na convivência fragilizada, o sujeito, privado de referências estáveis, habita um mundo imprevisível e hostil. Abuso político, da fé, de drogas, de corpos infantis, de animais, de mulheres e de poder inundam o noticiário e o cotidiano. No caos social, evitar gente pode ser uma estratégia adaptativa de quem não aprendeu a agredir, a se defender ou apenas tenta se proteger da crueldade da própria espécie.

O aumento dos transtornos de ansiedade, para além das estatísticas, é sintoma de uma civilização em descompasso consigo mesma.

MARA LÚCIA MADUREIRA

Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras