Palavras anciãs
Palavras são assim mesmo; de tão usadas, esfarrapam-se feito pano de chão e acabam se desfazendo numa espécie de aterro sanitário do vocabulário, muitas vezes substituídas por modismos de ocasião, muito menos resistentes

- Ele é muito Ladino... Isso, sim, é o que ele é!
Antes da semana passada, enquanto caminhava próximo a uma pequena discussão na feira-livre, a última vez que eu tinha ouvido a palavra “ladino” já remontava há uns sessenta anos, senão mais. Fiquei encafifado com “ladino”, lembrei de ter ouvido alguém dizê-la durante uma daquelas longas sessões de jogos de tômbola na sala da casa da vó Nenê, na rua Coronel Spínola. Alguém saiu-se com o adjetivo, em tom de blague, ao verificar que o autoproclamado ganhador da cinquina tinha apenas quatro números sorteados na linha horizontal em questão…
- Ah, deixa de ser ladino, fulano. Você não completou a cinquina.
Palavras são assim mesmo; de tão usadas, esfarrapam-se feito pano de chão e acabam se desfazendo numa espécie de aterro sanitário do vocabulário, muitas vezes substituídas por modismos de ocasião, muito menos resistentes.
É por razões desse tipo que gosto de ouvir o programete do professor Pasquale Cipro Neto (A Nossa Língua de Todo Dia) nas tardes da CBN. Com maestria, ele ensina seus ouvintes a descobrir, nas consultas ao dicionário, a longevidade das palavras desde quando, de fato, ganham registro de uso na língua portuguesa.
Não sei desde quando os brasileiros usam o adjetivo “ladino”, mas ainda está fresco em minha memória que significa algo próximo de “esperto”, ou coisa que o valha.
A curiosidade me leva aos dicionários, onde constato que, servindo para designar, ainda no Brasil colônia, os escravizados adaptados à cultura local e que, conhecedores do português, usavam-no para escapar, com astúcia, às tarefas mais penosas ou indesejáveis…
Mas o que mais me deixa intrigado, no momento, é por quais razões vejo-me de tal forma encafifado com a palavra ladino apenas por ouvi-la casualmente numa discussão na feira-livre.
E por quais razões não encafifei com a palavra “encafifar”, que – igualmente – me parece pertencer à laia das expressões, que esfarrapam-se feito pano de chão e acabam se desfazendo numa espécie de aterro sanitário do vocabulário, mas “encafifar” soa bem, não soa?
PS. No caso de “encafifar”, descubro agora que – ao contrário do que eu estava imaginando – existe um significado diferente de fixar-se longamente num pensamento a respeito de um assunto. Tem, também, o sentido de ficar tímido, envergonhado ou acanhado.
JOSÉ LUÍS REY
Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos