Diário da Região

Palavras anciãs

Palavras são assim mesmo; de tão usadas, esfarrapam-se feito pano de chão e acabam se desfazendo numa espécie de aterro sanitário do vocabulário, muitas vezes substituídas por modismos de ocasião, muito menos resistentes

por José Luís Rey
Publicado há 16 horasAtualizado há 12 horas
José Luís Rey (Divulgação)
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- Ele é muito Ladino... Isso, sim, é o que ele é!

Antes da semana passada, enquanto caminhava próximo a uma pequena discussão na feira-livre, a última vez que eu tinha ouvido a palavra “ladino” já remontava há uns sessenta anos, senão mais. Fiquei encafifado com “ladino”, lembrei de ter ouvido alguém dizê-la durante uma daquelas longas sessões de jogos de tômbola na sala da casa da vó Nenê, na rua Coronel Spínola. Alguém saiu-se com o adjetivo, em tom de blague, ao verificar que o autoproclamado ganhador da cinquina tinha apenas quatro números sorteados na linha horizontal em questão…

- Ah, deixa de ser ladino, fulano. Você não completou a cinquina.

Palavras são assim mesmo; de tão usadas, esfarrapam-se feito pano de chão e acabam se desfazendo numa espécie de aterro sanitário do vocabulário, muitas vezes substituídas por modismos de ocasião, muito menos resistentes.

É por razões desse tipo que gosto de ouvir o programete do professor Pasquale Cipro Neto (A Nossa Língua de Todo Dia) nas tardes da CBN. Com maestria, ele ensina seus ouvintes a descobrir, nas consultas ao dicionário, a longevidade das palavras desde quando, de fato, ganham registro de uso na língua portuguesa.

Não sei desde quando os brasileiros usam o adjetivo “ladino”, mas ainda está fresco em minha memória que significa algo próximo de “esperto”, ou coisa que o valha.

A curiosidade me leva aos dicionários, onde constato que, servindo para designar, ainda no Brasil colônia, os escravizados adaptados à cultura local e que, conhecedores do português, usavam-no para escapar, com astúcia, às tarefas mais penosas ou indesejáveis…

Mas o que mais me deixa intrigado, no momento, é por quais razões vejo-me de tal forma encafifado com a palavra ladino apenas por ouvi-la casualmente numa discussão na feira-livre.

E por quais razões não encafifei com a palavra “encafifar”, que – igualmente – me parece pertencer à laia das expressões, que esfarrapam-se feito pano de chão e acabam se desfazendo numa espécie de aterro sanitário do vocabulário, mas “encafifar” soa bem, não soa?

PS. No caso de “encafifar”, descubro agora que – ao contrário do que eu estava imaginando – existe um significado diferente de fixar-se longamente num pensamento a respeito de um assunto. Tem, também, o sentido de ficar tímido, envergonhado ou acanhado.

JOSÉ LUÍS REY

Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos