Palácio de Cristal
Se a comparação proposta por Berman fizer sentido para nós, é preciso reconhecer também que todos participamos da construção do nosso Palácio de Cristal

O Palácio de Cristal original foi construído em Londres para a Grande Exposição de 1851. Dostoiévski utiliza-o como referência simbólica para criticar os ideais racionalistas segundo os quais todo comportamento humano pode ser calculado, a sociedade pode ser organizada de forma perfeita e a felicidade seria uma consequência automática da razão e da ciência.
O professor marxista novaiorquino Marshall Berman, em “Tudo que é sólido desmancha no ar”, segue a mesma linha simbolista dostoievskiana e critica duramente o projeto de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Brasília, construída por decreto, “ex nihilo” (do nada), pelo presidente Juscelino Kubitschek no final dos anos 1950, exatamente no centro geográfico do país, é descrita por Berman como “uma das cidades mais inóspitas do mundo (...). A sensação geral é de enormes espaços vazios em que o indivíduo se sente perdido”.
Para Berman, “o projeto de Brasília talvez fizesse sentido como capital de uma ditadura militar, comandada por generais que quisessem manter a população a certa distância, isolada e controlada. Como capital de uma democracia, porém, é um escândalo”. Ele acrescenta: “uma sociedade livre precisa de espaços públicos democráticos onde pessoas vindas de todos os cantos do país possam reunir-se livremente, conversar umas com as outras e dirigir-se a seus governantes”.
O pressuposto ideológico dessa concepção arquitetônica fria, que distancia o povo do poder, é o de que, numa sociedade tão bem planejada, simbolizada por esse tipo de arquitetura, não haveria conflito, nem sofrimento, nem escolhas irracionais. “Tal como o Palácio de Cristal citado por Dostoiévski, a Brasília de Costa e Niemeyer não deixa a seus cidadãos e aos outros residentes do país nada mais a fazer”; isto é, segundo Berman, a cidade deixa todos os brasileiros politicamente imobilizados.
O projeto para emperrar politicamente uma sociedade, incrementado por obstáculos físicos que distanciam o cidadão de seus governantes, afirma Berman, decorre ainda da percepção, por governantes astutos, de uma contradição tipicamente moderna: a ampla liberdade que a modernidade confere a cada indivíduo e, ao mesmo tempo, o medo que essa mesma liberdade provoca; o desejo de fugir dela. Dostoiévski explorou esse temor em sua parábola do Grande Inquisidor, presente em “Os Irmãos Karamázov”, narrada por Ivan ao seu irmão Aliócha.
Cristo retorna à Terra, na Sevilha do século XVI, durante a Inquisição, e é preso pelo Grande Inquisidor, que lhe diz na prisão: “O homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal. Não há nada mais sedutor para o homem do que o livre-arbítrio, mas também nada de mais doloroso”. É por isso que, na modernidade, aponta Berman, jamais os homens se acreditaram tão livres como agora e, no entanto, em nome da segurança, são convencidos a depositar humildemente sua liberdade aos pés de um líder.
Se a comparação proposta por Berman fizer sentido para nós, é preciso reconhecer também que todos participamos da construção do nosso Palácio de Cristal.
EVANDRO PELARIN
Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras