Diário da Região
PAINEL DE IDEIAS

Onde o chão termina e o céu começa

Nesse pedaço, a divisa com o Rio Grande do Sul não é uma linha desenhada no mapa, nem um rio comum. Ela é feita por um grande degrau de basalto

por Sérgio Clementino
Publicado há 7 horas
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
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Santa Catarina é um estado abençoado. Ali a geografia resolveu exibir todo o seu repertório. Das praias de águas cristalinas ao frio das serras, o catarinense carrega um orgulho legítimo de viver em uma terra completa. As pessoas têm um jeito de acolher que mistura a hospitalidade do serrano com a leveza do litoral. Mas, no extremo sul do estado, existe um cenário que desafia a nossa percepção de limite e transforma a natureza em arquitetura divina.

Nesse pedaço, a divisa com o Rio Grande do Sul não é uma linha desenhada no mapa, nem um rio comum. Ela é feita por um grande degrau de basalto, um abismo monumental que parece ter sido cortado à faca. Em cima, o pampa gaúcho se estende pelos Campos de Cima da Serra; abaixo, as planícies catarinenses chegam ao Atlântico. É na borda desses cânions, onde as nuvens muitas vezes descansam sobre as encostas, que encontramos a pequena Praia Grande.

Com seus modestos 8 mil habitantes, Praia Grande guarda uma ironia no nome: não há mar, apenas um oceano de montanhas. O apelido "Capital Brasileira do Balonismo" não veio por acaso. Ela é palco de um espetáculo que acontece preferencialmente quando a madrugada ainda disputa espaço com a primeira luz. Voar de balão em Praia Grande é uma experiência única. O primeiro tipo de voo criado pelo homem, o balonismo, não impõe a vontade humana sobre o ar. Não há motores barulhentos, acelerações que te pressionam contra o assento ou manobras bruscas. É uma ascensão silenciosa, interrompida apenas pelo sopro ocasional do maçarico, que ecoa no meio do nada. Ao nascer do sol, quando os primeiros raios surgem no horizonte do mar e tingem as paredes dos cânions de dourado, a gente entende que o tempo lá em cima é outro. É um voo calmo, uma flutuação que nos permite observar a vida em "slow motion". Lá embaixo, os tratores parecem de brinquedo, as estradas são fios de costura entre o verde dos arrozais.

Essa experiência é feita para todos. Nosso grupo tinha de crianças a idosos. Não é preciso ser aventureiro ou buscar adrenalina, o balão é para quem busca paz. É o único momento em que estar "pendurado" a mil metros de altura não causa vertigem, mas uma estranha sensação de calma. Você percebe que, naquele cesto de vime, as preocupações que pareciam montanhas no dia a dia tornam-se minúsculas diante da imensidão dos Aparados da Serra.

Flutuar entre os dois estados, entre os cânions e as planícies, nos faz pensar sobre os nossos próprios "degraus". Às vezes, passamos a vida inteira com medo da borda, receosos do abismo. Mas é justamente no limite entre o que chamamos de chão e o vasto desconhecido, que a vista é mais bonita. Ao pousar de volta no solo catarinense, depois de um brinde com espumante, como manda a tradição dos balonistas, a gente não traz apenas fotos. Traz o silêncio do céu na memória e a certeza de que, de vez em quando, é preciso tirar os pés do chão para entender onde realmente queremos pisar.

SÉRGIO CLEMENTINO

Promotor de Justiça em Rio Preto.
Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras