O tempo nos explica

Construímos a nossa história a partir das experiências vivenciadas de modo inconsciente. Cada fragmento de amor e dor se arranja e se assenta como pode no espaço da memória e pode ser resgatado mais tarde e revisto com outro olhar. O julgamento envelhecido, ao revisitar o labirinto das emoções de outrora, atribui, no agora, sentidos aos que não foram percebidos no tempo do ocorrido. É injusto e cruel condenar as mazelas da juventude.
Cada decisão e suas consequências devem ser analisadas dentro do contexto temporal, sem a contaminação da maturidade. Ao elaborar os afetos, o adulto precisa ter a sensibilidade de pensar na criança, no jovem ou no adulto que atuava com suas forças e precariedades emocionais, sem a riqueza dos elementos constantes no repertório atual e sem o distanciamento proporcionado pelo agora.
A autocompaixão é, talvez, a mais sublime das virtudes. A culpa é o mais inútil dos sentimentos. Resulta do erro de pensamento: Se eu tivesse feito tal coisa, hoje eu não estaria como estou. Ou o contrário: Se eu não tivesse feito tal coisa, hoje eu estaria bem diferente. O perdão nasce do ajustamento de todas as perspectivas e da correção do julgamento. As piores decisões só são tomadas porque parecem, em um dado momento, o mais certo a se fazer. Não se erra de propósito. Só se erra por ignorância.
Os questionamentos antecedidos de “Se ao menos...”, além de não alterarem o passado, ainda arruínam o presente. Utilizar experiências passadas com propósitos de autopunição é construir estados de estagnação depressiva. O pesar arrasta para o afundamento. Qualquer um pode condenar os nossos erros, mas somente nós mesmos podemos absolvê-los e, quando o fazemos, nenhuma sentença alheia nos atinge.
A obsessão pelo rejuvenescimento é um ato de resistência contra a sabedoria, esse dom compensatório do envelhecer. O mesmo tempo que enruga a pele nos agracia com a compreensão de quem somos. Quem não se conhece não pode reconhecer-se. É dependente de aprovação. A razão central de sua vida é tentar corresponder a um modelo social de controle do corpo, da mente e da alma. Vive para parecer. Parecer jovem, belo, magro, bem ajustado e bem-sucedido para ser aceito no seleto grupo dos angustiados.
A vida deve ser mais do que aparência. A luta para parecer é o fracasso do ser. Uma boa dose de amor-próprio é suficiente para alcançar a paz. Tudo o que parece não é senão um arremedo de existência. Um manto para encobrir o medo. Não se pode dar o que não se tem. Quem não se ama não pode amar o outro. E, nessa condição de desamor, submete-se às exigências de outros igualmente desamados. Espera atenção e nunca se satisfaz com nada.
O tempo que nos resta, seja lá quanto for, é bastante para mudar a trajetória. Nunca é tarde para deixar de viver em conformidade, parar de tentar caber em formas generalizadas e construir, para si, razões sob medida. Isso tem menos a ver com egoísmo e mais com o resgate da capacidade de pensar individualmente e para o bem coletivo. Não se fazem sociedades justas com pensamentos uniformizados.
O retorno para si é a libertação das amarras públicas. Em cada fase da vida, fazemos o melhor que podemos, por pior que seja. Sob cada pele há apenas um ser. Ninguém está autorizado a nos impor um modelo rígido de conduta. Façamos sempre o melhor, de acordo com nosso entendimento e nossas possibilidades. Sejamos compassivos, sobretudo conosco. Aprendamos a nos amar com tamanha generosidade que sobre o bastante para distribuir ao próximo.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras