Diário da Região
PAINEL DE IDEIAS

O SILÊNCIO DO CARNAVAL

Enquanto o país do carnaval se veste de glitter e suor, existe uma parcela de brasileiros que prefere qualquer lugar onde a única música disponível seja o estalo dos gravetos

por Sérgio Clementino
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
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Fevereiro é um mês que pulsa em frequências opostas. Para uns, é a batida do pandeiro, o asfalto fervendo sob muitos pés, a liberdade posta na rua. Para outros, é o desejo quase instintivo de desaparecer. Enquanto o país do carnaval se veste de glitter e suor, existe uma parcela de brasileiros que prefere qualquer lugar onde a única música disponível seja o estalo dos gravetos sob os chinelos ou o correr de águas sem pressa. É a famosa fuga estratégica. Enquanto o país se espreme nos blocos, o “fugitivo” carrega o carro com o essencial: comida, bebida e a promessa de não ouvir um único apito de mestre-sala. O destino pode ser um lugar onde o tempo não é medido por horas, mas pela inclinação da luz nas árvores.

Fevereiro também carrega consigo seu fenômeno mais característico: o mormaço. Na cidade, o mormaço é um castigo; no mato, é um ritual. É aquela tarde pesada, em que o ar parece ter se tornado sólido, uma massa quente que a gente empurra para conseguir caminhar. O céu vai se tingindo de um cinza chumbo, o sol dá um pequeno descanso. E então, os trovões. Eles não são secos como os de inverno. São graves, profundos, como se estivessem arrastando móveis gigantescos no andar de cima do mundo. É o prelúdio daquela chuva típica de fevereiro, que cai com uma violência repentina. Para quem fugiu para uma beira de rio, esse momento é de uma beleza crua. A chuva bate na superfície da água com uma força que levanta uma névoa rasteira. Mas, como toda chuva desse mês, ela é uma enganação térmica. Ela não refresca de imediato. Ela “cozinha”. O chão quente recebe a água fria e devolve um vapor denso, um hálito de terra molhada e mato amassado que invade os pulmões. É o cheiro da vida em estado bruto.

Ficar sob o teto de um rancho ou na varanda de uma casa de fazenda durante esse mormaço transformado em tempestade é o ápice do luxo para o fugitivo. Ali, entre um trovão e outro, a procrastinação coletiva da vida adulta, aquela ideia de que o ano só começa na quarta-feira de cinzas, ganha um novo significado. Não é sobre adiar o trabalho, mas sobre retomar o fôlego. Enquanto a cidade cozinha em seu próprio movimento e as pessoas se esbaldam nos blocos ou atrás do trio, o retirante de fevereiro observa a chuva passar, o vapor subir, o rio subir de nível. Quando o sol finalmente reaparece, por volta das seis da tarde, a luz já é outra. O dia começa a encurtar, a luz se torna mais oblíqua, um dourado melancólico que avisa que o equinócio de outono está espreitando logo ali, depois da próxima curva do calendário.

No silêncio do refúgio, percebe-se que fevereiro é curto para o calendário, mas eterno para a alma. É o mês de se permitir ser cozinhado pelo tempo, de aceitar o calor como parte da existência e de entender que, às vezes, a melhor maneira de “começar” o ano não é no meio da multidão, mas em algum lugar onde o único barulho que se ouve é o da própria natureza, nos lembrando da nossa inevitável pequenez.

SÉRGIO CLEMENTINO

Promotor de Justiça em Rio Preto.
Escreve quinzenalmente neste espaço
às terças-feiras