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PAINEL DE IDEIAS

O que há algum tempo era antigo, hoje é novo e jovem

O velho e subestimado artesanato ressurge como forma contemporânea e sofisticada de resistência subjetiva ao regime de dispersão permanente

por Mara Lúcia Madureira
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Mara Lúcia Madureira (Mara Lúcia Madureira)
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Por muito tempo, atividades artesanais estiveram associadas à feminilidade doméstica, baixa sofisticação cultural e à velhice. Hoje, jovens urbanos se reapropriaram dessas práticas, como formas de expressão subjetiva e resistência ao consumo industrial massificado.

Esse movimento não tem nada a ver com nostalgia. Parte dos nascidos na geração Z e na geração Alfa nunca viveram no mundo analógico. O que eles estão buscando são experiências mais humanas e menos aceleradas e artificiais. Trata-se de uma tentativa cultural de recuperar a continuidade psíquica, em uma era de excesso de estímulos, velocidade e fragmentação.

O modelo de produtividade alucinante de (des)serviços improdutivos e produtos efêmeros está se esgotando. Jovens pensantes não suportam mais o discurso rançoso de desempenho contínuo, métricas, visibilidade e comparação social. Para eles, o valor está no fazer. Nesse sentido, a produção manual é um modo de distinção em uma cultura saturada de produtos idênticos e algorítmicos.

A retomada de atividades como crochê, tricô, bordado, cerâmica, jardinagem e marcenaria, entre jovens, faz parte de um movimento cultural de reação ao excesso de estímulo digital, à aceleração da vida e à sensação de desintegração identitária. Os filhos da era tecnológica estão tentando reconstruir, de forma intuitiva, experiências de lentidão, materialidade e autonomia.

Notificações infinitas, vídeos curtos, alternância constante de foco, recompensas instantâneas, consumo fragmentado de informação levam à exaustão atencional, ansiedade, irritabilidade e sensação de vazio cognitivo. Atividades manuais envolvem aspectos neuropsicológicos como atenção focada, repetição rítmica e coordenação motora fina. Tais práticas desaceleram o fluxo mental e se assemelham a estados meditativos.

Paradoxalmente, o ambiente digital, que causa esgotamento mental e ansiedade, contribuiu para a transformação de atividades invisíveis em tendências aspiracionais de desaceleração. A experiência de produzir um objeto físico com as próprias mãos, em ritmo lento, com gestos previsíveis, devolve a materialidade enfraquecida nas relações digitais e imagens filtradas. Há textura, peso, imperfeição, tempo investido, começo, meio e fim visíveis. O resultado palpável produz a sensação de realidade e concretude.

A cerâmica artesanal combina factualidade, imperfeição estética e experiência tátil. A jardinagem reconecta o sujeito à natureza em ambientes urbanizados. O crochê, bordado e tricô resgatam a criatividade na dimensão meditativa. O vinil retoma o ato ritualístico da escolha e a tranquilidade de ouvi-lo integralmente. A fotografia analógica valoriza a espera e a limitação técnica em oposição à compulsão por infinitas imagens digitais imediatas.

Houve também um estrondoso aumento dos clubes de leitura, o retorno da escrita à mão, caligrafia, culinária, panificação artesanal e dos jogos de tabuleiro. Todos têm em comum a presença, escolha, tolerância à lentidão, continuidade atencional e experiência concreta.

O velho e subestimado artesanato ressurge como forma contemporânea e sofisticada de resistência subjetiva ao regime de dispersão permanente.

MARA LÚCIA MADUREIRA

Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras