PAINEL DE IDEIAS

O palco é aqui

E, se o Guns N’ Roses e a Libertadores também passam por aqui, é porque o centro do mundo pode ser até o nosso próprio quintal

por Sérgio Clementino
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
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Por muito tempo, o mapa do sucesso brasileiro foi desenhado com linhas que convergiam invariavelmente para o concreto das metrópoles. Fugia-se da poeira e daquela sensação de que o relógio da vida girava mais devagar no interior. A migração para as capitais nunca foi apenas sobre o contracheque ou o acesso a hospitais de ponta. Havia um motor invisível, puramente emocional: o medo de "ficar para trás". Os grandes centros vendiam uma ilusão poderosa, de que ali era o epicentro do mundo. Estar na capital era estar na vitrine, no lugar onde, como se dizia, “as coisas acontecem”. Mesmo que o preço fosse o trânsito extenuante, o ar pesado, a violência desenfreada e o custo de vida que devora sonhos. Para muitos, era preferível uma vida de "perrengue" na grande cidade do que o conforto de uma varanda no interior, onde a única novidade era o canto dos pássaros ou a fofoca da padaria. O silêncio do interior soava como irrelevância.

Contudo, o mundo girou mais rápido do que a nossa percepção. Aquele interior por vezes estigmatizado como "atrasado" ou "desconectado", deixou de existir. A fibra ótica e a descentralização econômica demoliram os muros que separavam o progresso das cidades de porte médio. Hoje, o interior não é mais o lugar do "quase". A prova disso está nos indicadores de PIB, mas também no entretenimento e no esporte, que sempre foram termômetros da nossa relevância cultural.

Esta semana, seremos testemunhas de algo que, há vinte anos, pareceria um delírio: as luzes da cena global se voltam para o noroeste paulista. Ver o Guns N’ Roses despejando seus clássicos em Rio Preto, com Axl Rose e Slash pisando o mesmo chão que o nosso, não é apenas um show; é uma validação. Um dia depois, ver a bola rolando em um jogo da Libertadores em Mirassol confirma que o mapa mudou. Onde "as coisas acontecem" agora é um conceito geográfico móvel. O "eixo" já não tem mais o monopólio da história.

É claro que ainda existem os céticos, aqueles que acreditam que o brilho da vida só existe sob as luzes de uma metrópole de dez milhões de habitantes. Mas a realidade tem sido uma professora severa para quem ignora o interior. Hoje, é possível gerir empresas globais de um escritório em Rio Preto ou coordenar operações logísticas complexas em cidades vizinhas, sem abrir mão de buscar os filhos na escola em dez minutos. O interior descobriu o segredo que a capital, em sua pressa desmedida, esqueceu: é possível fazer acontecer mantendo a qualidade de vida. O crescimento aqui não precisa vir acompanhado do caos. Podemos ter o rock n’ roll e o futebol de elite sem abrir mão do café coado com calma e da noite que realmente permite o descanso.

O antigo desejo de "ser alguém na cidade grande" está sendo substituído pela satisfação de "ser feliz onde eu estou". Onde as coisas acontecem? Onde há talento, investimento e, acima de tudo, onde há gente disposta a criar o futuro. E, se o Guns N’ Roses e a Libertadores também passam por aqui, é porque o centro do mundo pode ser até o nosso próprio quintal.

SÉRGIO CLEMENTINO

Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras