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PAINEL DE IDEIAS

O Milagre de Berna

Utilize minutos de uma noite dessas e o assista por streaming. Você se recompensará artisticamente sem se desprender do “espírito da Copa”

por Romildo Sant’anna
Publicado em 21/06/2026 às 00:05
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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Há filmes que narram histórias e sentimentos individuais. Outros escrevem façanhas e épocas. E há aqueles que parecem tocar em cordas invisíveis dentro de nós, atualizam arcanos e mitos ancestrais da condição humana. "O Milagre de Berna" (2003), do cineasta alemão Sönke Wortmann, é uma das poucas obras de cinema a abordarem temas das Copas do Mundo. Realidade e fantasia se mesclam e o futebol mercantil, como enfrentamento e paixão, revive dramas interiores que ultrapassam tempos e lugares. Permita-me recomendá-lo, caro leitor. Utilize minutos de uma noite dessas e o assista por streaming. Você se recompensará artisticamente sem se desprender do “espírito da Copa”.

‘O Milagre de Berna’ evoca episódios relacionados ao triunfo da seleção de futebol da Alemanha Ocidental no Mundial da FIFA de 1954, disputado na Suíça. No jogo final, derrotar a poderosa Hungria do craque Puskás era um feito inimaginável. A proeza coube ao atacante Helmut Rahn, celebrizado como Herói da Copa. Jovem interiorano, o atacante era amigo de um menino que sempre o acompanhava nos jogos amadores da pequena cidade onde moravam. Para o atleta, o garoto era um talismã, dava-lhe sorte; para a criança, Helmut supria-lhe o amor paterno, pois o pai verdadeiro lhe faltara por vários anos, num campo de prisioneiros da Segunda Guerra.

O povo alemão, tropeçando em destroços, nutria um sonho em silêncio: vencer o Campeonato Mundial. Vitimada também por pestilentas sombras de Hitler, a nação inteira proveu-se de esperança. Ante a aflição do filho, distante do amigo que fora convocado para jogar na Suíça, o pai o acompanha de trem à cidade de Berna para assistirem à decisão contra a invicta Hungria. Percalços os fizeram chegar ao estádio na metade do segundo tempo. O time alemão perdia por 2 a 1 e o desempenho de Helmut era fraco, decerto a sentir a ausência do menino que lhe dava sorte. Mas, ao avistá-lo à beira do gramado, dobram-lhe as energias e marca dois gols de virada, na prorrogação.

Um dos enigmas da existência se traduz em gestos de espiritualidade. Talvez por isso, ‘O Milagre de Berna’ siga atual como retalho da vida. Lembra-nos de que uma ideia não move montanhas por magias inférteis. Move-as porque as transforma em atos de fé, alumbramento. Na sensível obra, Berna não é somente a capital de uma nação, mas o recanto onde se revigoram estados de alma do humano universal, atemporal, paragem em que os desanimados voltam a acreditar, e se fortalecem. E onde o espírito humano, outra vez, vivencia um prodígio antigo, inexplicável: o divino instante em que, pulsando em segredo, uma estranha força desafia o imponderável para superá-lo. O filme é um preito à bendição dos afetos. Tendo como mote o futebol, alegoriza os mistérios da fé a curarem feridas de inocentes atormentados entre os horrores de tantas guerras.

ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos