O espelho do tempo
Olhando para o meu filho, cercado por figurinhas e expectativas, sou assaltado por uma mistura de sentimentos. Há uma nostalgia profunda, quase dolorida, ao me enxergar nele

Existe uma idade mágica em que o futebol deixa de ser apenas um jogo de correria e se torna uma espécie de religião civil. É a idade em que os olhos guardam as cores do mundo com uma nitidez que o tempo nunca mais consegue apagar. Em 1982, eu tinha exatamente os mesmos doze anos que meu filho mais velho tem hoje. E aquela foi, sem qualquer direito a contestação do destino, a minha Copa inesquecível.
Nós vínhamos de um inverno longo. Aquela Seleção de Telê Santana desenhava a promessa de uma primavera. Zico, Sócrates, Falcão, Éder não eram apenas futebol. Havia a certeza absoluta de que o futebol arte mudaria a história. Cada partida era um desfile de genialidade que alimentava a nossa arrogância inocente de torcedor. Até que veio o Sarriá. Paolo Rossi transformou o concreto de Barcelona em um deserto de silêncio. Lembro-me perfeitamente do gosto amargo das lágrimas daquela eliminação. Chorei o fim do mundo aos doze anos, recolhendo as bandeirinhas que enfeitavam a rua, sem entender como o futebol podia ser tão belo e, ao mesmo tempo, tão cruel.
Hoje, assisto ao mesmo filme, repaginado pelo tempo. Meu filho vive agora o seu próprio rito de passagem. Ele respira a Copa do Mundo. Conhece as seleções, decora as escalações, negocia figurinhas como mercadores fazendo escambo de especiarias e ouro. É o mesmo brilho nos olhos, a mesma urgência em fazer parte da história.
Escrevo estas linhas antes da divulgação da lista dos convocados de Ancelotti. A pergunta que movimenta os debates é uma só: Neymar vai ou não vai? O país prende a respiração diante do mistério médico e técnico que envolve o craque. Aqui em casa, essa espera tem outro fator. Para o meu filho, que herdou o amor pelo Santos, a ida de Neymar tem o peso de uma utopia romântica. Ver um jogador do seu clube de coração vestir a amarelinha em uma Copa tornou-se um privilégio raríssimo para os torcedores brasileiros, acostumados a ver seus ídolos exilados nos gramados estrangeiros. Para você, caro leitor, essa pergunta já é passado. A lista do treinador já foi lida, os nomes já foram sacramentados e o destino já foi traçado. Mas, enquanto digito, o suspense ainda flutua no ar.
Olhando para o meu filho, cercado por figurinhas e expectativas, sou assaltado por uma mistura de sentimentos. Há uma nostalgia profunda, quase dolorida, ao me enxergar nele. Vejo o adolescente que fui, com os mesmos medos camuflados de coragem, a mesma paixão por onze camisas amarelas correndo num gramado distante. Mas, acima de tudo, sinto alegria. Uma alegria imensa em testemunhar o tamanho do futuro que ele tem pela frente. Sei que o futebol vai lhe ensinar grandes lições sobre perda, assim como aconteceu comigo em 1982. Sei que haverá desilusões na sua caminhada, gols contra e apitos finais antes da hora. Mas sei, também, que haverá gols de placa, viradas heroicas, realizações e alegrias que ele ainda não consegue imaginar. O álbum dele está apenas na primeira página. E o jogo da vida, felizmente, recém começou.
SÉRGIO CLEMENTINO
Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras