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PAINEL DE IDEIAS

O analfabetismo no Brasil

Em Cuba, o governo revolucionário lançou em 1961 uma campanha nacional de erradicação do analfabetismo, com forte engajamento social de mais de 270 mil voluntários

por Durval de Noronha Goyos Jr.
Publicado em 14/07/2026 às 21:44Atualizado em 14/07/2026 às 21:44
Durval de Noronha Goyos Jr. (Durval de Noronha Goyos Jr.)
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Em 19.6.2026, o IBGE anunciou que o analfabetismo no Brasil foi reduzido a menos de 5% da população, afetando principalmente maiores de 60 anos. Este patamar representa uma queda de 50% daquele de 2001, igual aos níveis atuais dos EUA. Foi uma notícia auspiciosa. De fato, o Mestre Confúcio ensinou que “a ignorância é a noite da mente, mas uma noite sem lua, nem estrelas”. Este aforisma foi adaptado na lírica genial de Dante, 1700 anos após o Mestre, nos seguintes versos, em minha tradução livre: “Considere a sua herança: não foi feito para viver como bruto, mas para seguir virtude e mestrança...” O significado da conquista é realçado pelo fato de que, em 1889, a taxa de analfabetismo no País era de 85%, incentivada pela proibição de voto aos iletrados, assegurada pelo acesso à educação por apenas 15% da população e confirmada pela remuneração dos professores abaixo daquela dos feitores de escravos.

Contudo, a importante e bem-vinda conquista brasileira ocorre com vergonhoso atraso. Na Argentina, por exemplo, em 1868, o índice de analfabetismo, no patamar de 79%, era aproximado ao brasileiro. Um novo presidente, quem assumiu o cargo naquele ano, o admirável estadista latino-americano, Domingo Sarmiento, revolucionou o processo civilizatório do país-irmão, com medidas educacionais várias que incluíram a construção de mais de 800 escolas, o ensino gratuito universal, contratação de professores e abertura de aproximadamente 2000 bibliotecas. Como resultado, o índice de analfabetismo na Argentina em 1914 era de 37%, enquanto no Brasil se situava em 80%.

Domingo Sarmiento passou à história como o “pai da educação”, além de ter combatido politicamente os desmandos totalitários do ditador General Juan Manuel de Rosas, responsável pelo maior genocídio das populações nativas cometido pelos Estados independentes latino-americanos. Sarmiento é homenageado por estátuas em todo o país, com plena justiça. O estadista argentino foi também advogado e escritor. Em sua obra, ‘Fecundo’, ele denuncia o totalitarismo e a barbárie, através do personagem repugnante, covarde e sanguinário, que dá título ao romance. O notável Jorge Luís Borges opinou ser o livro “a maior história argentina, com o melhor personagem de nossas letras”.

Em Cuba, o governo revolucionário lançou em 1961 uma campanha nacional de erradicação do analfabetismo, com forte engajamento social de mais de 270 mil voluntários, sob a liderança do inspirado guia Ernesto Che Guevara. O governo cubano via acertadamente o projeto como ferramenta para o combate aos problemas sociais do país e para a construção de uma sociedade mais igualitária. A iniciativa derrubou o índice de iletrados, próximo aos 40%, para o nível de 0.2%, tornando Cuba o primeiro território livre do flagelo do iletrismo no continente, segundo a UNESCO.

A grande conquista civilizatória brasileira anunciada pelo IBGE é mais um grande mérito do presidente Lula e de seu governo, a qual deve ser reconhecida e comemorada pela Nação. Ao mesmo tempo, este sucesso incentiva um esforço coletivo renovado, não apenas com a eliminação dos resíduos de analfabetismo, mas ainda para um adensamento das medidas educacionais públicas. Essas certamente assegurarão um crescimento qualitativo e quantitativo das oportunidades sociais, do que todo o Brasil irá amplamente se beneficiar nos anos vindouros.

DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.

Jurista, professor e escritor polígrafo. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores. Da Academia de Letras de Portugal. Ex-diretor do Sindicato dos Escritores (SP). Presidente do Instituto Noronha. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras