O analfabetismo no Brasil
Em Cuba, o governo revolucionário lançou em 1961 uma campanha nacional de erradicação do analfabetismo, com forte engajamento social de mais de 270 mil voluntários

Em 19.6.2026, o IBGE anunciou que o analfabetismo no Brasil foi reduzido a menos de 5% da população, afetando principalmente maiores de 60 anos. Este patamar representa uma queda de 50% daquele de 2001, igual aos níveis atuais dos EUA. Foi uma notícia auspiciosa. De fato, o Mestre Confúcio ensinou que “a ignorância é a noite da mente, mas uma noite sem lua, nem estrelas”. Este aforisma foi adaptado na lírica genial de Dante, 1700 anos após o Mestre, nos seguintes versos, em minha tradução livre: “Considere a sua herança: não foi feito para viver como bruto, mas para seguir virtude e mestrança...” O significado da conquista é realçado pelo fato de que, em 1889, a taxa de analfabetismo no País era de 85%, incentivada pela proibição de voto aos iletrados, assegurada pelo acesso à educação por apenas 15% da população e confirmada pela remuneração dos professores abaixo daquela dos feitores de escravos.
Contudo, a importante e bem-vinda conquista brasileira ocorre com vergonhoso atraso. Na Argentina, por exemplo, em 1868, o índice de analfabetismo, no patamar de 79%, era aproximado ao brasileiro. Um novo presidente, quem assumiu o cargo naquele ano, o admirável estadista latino-americano, Domingo Sarmiento, revolucionou o processo civilizatório do país-irmão, com medidas educacionais várias que incluíram a construção de mais de 800 escolas, o ensino gratuito universal, contratação de professores e abertura de aproximadamente 2000 bibliotecas. Como resultado, o índice de analfabetismo na Argentina em 1914 era de 37%, enquanto no Brasil se situava em 80%.
Domingo Sarmiento passou à história como o “pai da educação”, além de ter combatido politicamente os desmandos totalitários do ditador General Juan Manuel de Rosas, responsável pelo maior genocídio das populações nativas cometido pelos Estados independentes latino-americanos. Sarmiento é homenageado por estátuas em todo o país, com plena justiça. O estadista argentino foi também advogado e escritor. Em sua obra, ‘Fecundo’, ele denuncia o totalitarismo e a barbárie, através do personagem repugnante, covarde e sanguinário, que dá título ao romance. O notável Jorge Luís Borges opinou ser o livro “a maior história argentina, com o melhor personagem de nossas letras”.
Em Cuba, o governo revolucionário lançou em 1961 uma campanha nacional de erradicação do analfabetismo, com forte engajamento social de mais de 270 mil voluntários, sob a liderança do inspirado guia Ernesto Che Guevara. O governo cubano via acertadamente o projeto como ferramenta para o combate aos problemas sociais do país e para a construção de uma sociedade mais igualitária. A iniciativa derrubou o índice de iletrados, próximo aos 40%, para o nível de 0.2%, tornando Cuba o primeiro território livre do flagelo do iletrismo no continente, segundo a UNESCO.
A grande conquista civilizatória brasileira anunciada pelo IBGE é mais um grande mérito do presidente Lula e de seu governo, a qual deve ser reconhecida e comemorada pela Nação. Ao mesmo tempo, este sucesso incentiva um esforço coletivo renovado, não apenas com a eliminação dos resíduos de analfabetismo, mas ainda para um adensamento das medidas educacionais públicas. Essas certamente assegurarão um crescimento qualitativo e quantitativo das oportunidades sociais, do que todo o Brasil irá amplamente se beneficiar nos anos vindouros.
DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Jurista, professor e escritor polígrafo. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores. Da Academia de Letras de Portugal. Ex-diretor do Sindicato dos Escritores (SP). Presidente do Instituto Noronha. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras