PAINEL DE IDEIAS

O altar dos homens

A democracia é um sistema feito para que não precisemos de homens supremos para que as coisas funcionem. Ela pressupõe que, como todos são falíveis, ninguém pode ter poder demais.

por Sérgio Clementino
Publicado há 2 horas
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
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Diz a nossa Constituição que a Administração Pública deve reger-se pelo princípio da impessoalidade. No papel, a ideia é de uma elegância monástica: o Estado não tem rosto, não tem amigos e, acima de tudo, não tem favoritos. O carimbo não deve conhecer o sobrenome de quem pede, nem a mão que assina deve tremer diante de um poderoso. Mas, entre o texto frio da lei e o calor do asfalto tropical, a impessoalidade no Brasil sempre foi uma ilustre desconhecida. Temos uma dificuldade crônica com o abstrato. As instituições nos parecem entidades frias e distantes. Preferimos o calor do aperto de mão, o brilho no olho, a promessa sussurrada. Onde deveria haver um organograma, buscamos um "pai". Ao invés de um processo, procuramos um "padrinho". Essa nossa ojeriza à neutralidade das regras criou um terreno fértil para a nossa maior monocultura política: a produção de salvadores da pátria.

O messianismo é o esporte nacional mais praticado. Funciona assim: de tempos em tempos, elege-se um novo herói para carregar o peso das nossas frustrações. O roteiro é sempre o mesmo: surge uma figura que se coloca acima “do que está aí", alguém que promete limpar a sujeira com as próprias mãos, sem a burocracia das leis. O problema é que, ao personificarmos a virtude em um único CPF, cometemos um erro básico. Quando dependemos de pessoas em vez de processos, exigimos delas a infalibilidade, um atributo que, até onde a biologia e a teologia nos ensinam, não pertence aos mortais.

Sem vigilância, o poder absoluto se torna um convite ao excesso. O "herói", sentindo-se ungido pelo destino, passa a acreditar que as regras são feitas só para os outros. É nesse vácuo de fiscalização que o abuso floresce. O ciclo se completa com a derrocada. O ídolo poderoso é invariavelmente desmascarado. E então as mesmas pessoas que ontem glorificavam o “herói do povo” agora se surpreendem ao vê-lo falho e corrompido.

A dura realidade que insistimos em ignorar é que heróis, sejam os que usam capa para salvar o mundo ou os que usam terno para salvar a democracia, só existem na ficção. Na vida real, a liberdade não é garantida por um indivíduo iluminado, mas por uma malha de instituições chatas, impessoais e rigorosas. A democracia é um sistema feito para que não precisemos de homens supremos para que as coisas funcionem. Ela pressupõe que, como todos são falíveis, ninguém pode ter poder demais.

Enquanto continuarmos a buscar o "salvador" da vez, continuaremos a ser apenas um ajuntamento de pessoas, uma massa de manobra à espera de um santo milagreiro. Uma nação de verdade não se faz com seres superpoderosos, mas com cidadãos que confiam na força das regras. Precisamos trocar o culto à personalidade pelo respeito ao protocolo. Caso contrário, seguiremos como eternos órfãos, trocando de “pai” de tempos em tempos, sem nunca percebermos que a única salvação possível é aquela que não tem nome, nem sobrenome: a lei aplicada a todos, de forma impessoal.

SÉRGIO CLEMENTINO

Promotor de Justiça em Rio Preto.

Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras