Minha saga no Magistério II
Nessa minha saga com professora, lecionei por uns tempos na Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof. Amaury de Assis Ferreira, no Bairro Cecap, em Rio Preto

Andei por aí, andei e muito. Nessas minhas andanças docentes, experimentei além de episódios agradáveis, também alguns dissabores.
Em compensação, tive alunos que marcaram intensamente minha vida. Inesquecíveis! Uns pela rebeldia e relacionamento conflituoso em sala de aula. Outros, na maioria das vezes, nem tanto pelo desempenho acadêmico, mas por sua excepcional arte de encantar.
Nessa minha saga com professora, lecionei por uns tempos na Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof. Amaury de Assis Ferreira, no Bairro Cecap, em Rio Preto. Nessa ocasião, conheci crianças excepcionais.
E é sobre uma delas que quero contar hoje. Quero falar do Gilberto. O sobrenome não me ocorre mais. O Gilberto, sempre.
Miúdo, pardo e por isto com um grande sentimento de inferioridade já encalacrado nos seus tão poucos anos de existência. Seis! Imaginem o desconforto e a dor do pequenino. Tentei de todas as formas suavizar tal sentimento e espero ardentemente ter alcançado meu propósito.
Gilberto era um menino espoleta. Era só estarmos em recreio que começava a gritar:
- Professora, professora!
Eu atendia ao seu chamado e como sempre levava um baita susto. Ele rodopiava pelo pátio a dar cambalhotas sem fim e a cada pirueta meu coração saltava pela boca. Lá ia eu atrás do Gilberto para refrear seus impulsos acrobáticos com medo de que se ferisse. Era o que ele queria. A minha atenção e a das demais crianças.
Quando eu me aproximava lançava aquele olhar maroto e doce a espalhar alegria a sua volta. Olhar de marshmallow. Não havia como não gostar daquela criaturinha. Academicamente mediano. Terrivelmente humano.
Numa certa ocasião, fizemos uma atividade complementar a um texto trabalhado em aula, que consistia em uma brincadeira para sabermos quem conseguiria entrar para o céu, de acordo com o que tínhamos comentado sobre o tema. Claro que havia algumas condições para terem acesso ao Éden. A porta da sala era simbolicamente a passagem para o paraíso. Do lado de fora, batiam à porta pedindo para entrar: eu fazia algumas perguntas para saber se eram “merecedoras de irem para o céu”. Só então o acesso era liberado e evidentemente todos adentravam ao paraíso.
Terminada a brincadeira, imediatamente, Gilberto disse:
- Professora, faltou a senhora. Agora é a sua vez, e me “pôs para fora”. Fechou a porta e me fez perguntas iguais às que eu havia feito para todos. Respondi a elas. Abriu a porta e disse-me: merece entrar no céu mais do que ninguém. Sem você, professora, não teria a menor graça. Chorei de emoção. Foi além de lindo momento, um dos mais impactantes da minha carreira docente.
Com ele aprendi muito e ficaria maravilhada em saber se consegui compreendê-lo, nem que tenha sido um pouquinho só. Há tempos venho querendo ter notícias dele, sem sucesso. Se alguém souber, por favor fale comigo. Adoraria revê-lo.
Não sei se meu escrito chegará até você, Gilberto. Espero que sim. De qualquer modo, receba com muito carinho, minha singela homenagem por ter me proporcionado momentos tão marcantes, mais de aprender do que ensinar.
MERLI DINIZ
Professora, advogada, poeta e cronista. Vice coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ª Subseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras