Diário da Região
Painel de ideias

Minha saga no Magistério I

Às queridas crianças e adolescentes, estudantes que passaram pela minha vida nessa viagem como educadora, deixo aqui minha declaração de amor

por Merli Diniz
Publicado em 08/01/2026 às 03:27
Merli Diniz (Merli Diniz)
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Comecei minha carreira de professora efetiva, depois de ter passado em concurso público, no Grupo Escolar Rural Coronel Pontes Gestal. Foi um tempo feliz, apesar das estradas de terra. Quando chovia, era barro a perder de vista. Carros atolados eram poucos, pois os automóveis eram artigo de luxo naquela época. Diferente do que acontece hoje em que há mais veículos que pedestres. O professor que podia comprar, tinha um fusca, que era o máximo! Para prosseguir a viagem e chegar até às escolas era um Deus nos acuda. Isso quando o meio de transporte era sobre quatro rodas. O comum mesmo eram a charrete e o cavalo. Odisseia, aliás, corriqueira a quase todo o magistério paulista: conseguir chegar até os alunos.

Cansada de lama e de ficar pelo caminho, resolvi morar na cidade de Pontes Gestal. Morei uns tempos na casa da Neide e do seu Edgard, que era servente da escola. Dona Olga, mãe de um aluno meu, fazia os melhores pratos da redondeza e saciou minha fome inúmeras vezes. Faria inveja a qualquer chefe de cozinha, desses que a televisão costuma badalar. Saudosos tempos de maravilhosa convivência.

Que dizer então, dos meus inesquecíveis alunos de rostinhos sorridentes, a vontade de aprender, o gosto pela escola?

Lembro-me de todos eles. A alegria, a ingenuidade. Uns vinham a cavalo, como o Paulo Sérgio, outros de paletozinho de flanela estampada em fundo amarelo, como o Ednilson. Alguns sem agasalho, mas vinham todos com alegria, pois a escola era lugar de confraternização, de socialização, de encantamento. Já compreendiam que conhecimento era uma forma de poder entender o mundo e dele participar.

Minha história de amor com todos os meus alunos é intensa. Permanece guardada no recôndito da minha memória e me causa prazer e saudade ao recordá-la. Foram eles que me deram a oportunidade de apender ao ensinar.

Em toda essa caminhada como professora, a qual me proporcionou muitas alegrias, tenho uma única coisa a lamentar: os danos que os governadores paulistas que sucederam ao grande democrata Franco Montoro, veem causando sistemática e intencionalmente no desmantelamento do sistema educacional e no descaso para com o Magistério. Além dos baixíssimos salários, as péssimas condições de trabalho. Com toda certeza é um projeto que objetiva que a população fique cada vez mais, mal informada, para facilitar a manutenção do status quo de quem tem dinheiro e poder. Não encontro outra explicação para tanto descaso dos administradores do estado de São Paulo, tanto pelo Magistério, quanto em relação a uma educação que liberte e transforme nossos discentes em cidadãos críticos e conscientes do papel de cada um numa sociedade que deveria ser justa e igualitária para todos. Uma nação só se agiganta quando a educação é tratada como prioridade.

Às queridas crianças e adolescentes, estudantes que passaram pela minha vida nessa viagem como educadora, deixo aqui minha declaração de amor: tenho muito de vocês e do que me proporcionaram no convívio escolar.

Trago em mim um pouco de cada um.

MERLI DINIZ

Professora, advogada, poeta e cronista. Vice coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ªSubseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras