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Lealdade? A quem?

Nunca se falou tanto em lealdade na política, e raramente ela esteve tão distante do cidadão comum. Invocada como virtude suprema, passou a ocupar um lugar ambíguo no discurso público

por Prof Dr João Paulo Vani
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
João Paulo Vani (João Paulo Vani)
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Nunca se falou tanto em lealdade na política, e raramente ela esteve tão distante do cidadão comum. Invocada como virtude suprema, a palavra passou a ocupar um lugar ambíguo no discurso público: ora apresentada como fidelidade ao eleitor, ora mobilizada como escudo retórico para justificar erros, silenciar críticas e preservar posições de poder. O problema, portanto, não está na ideia de lealdade em si, mas no modo como ela vem sendo instrumentalizada.

Em seu sentido moral clássico, a lealdade pressupõe reciprocidade, compromisso e responsabilidade. Ser leal é honrar um pacto, responder por escolhas e agir com coerência diante de princípios compartilhados. No campo político, isso significaria fidelidade ao mandato recebido, ao interesse público e às instituições democráticas. No entanto, o que se observa com frequência é um deslocamento desse significado: a lealdade deixa de ser dirigida ao povo, sendo exigida como fidelidade pessoal ou obediência estratégica.

Quando a lealdade se transforma em exigência de silêncio diante do erro, ela deixa de ser virtude e se aproxima perigosamente da cumplicidade. Críticas passam a ser tratadas como traição; o dissenso, como ameaça. Nesse contexto, a palavra já não protege a democracia, mas funciona como técnica de poder, útil para neutralizar questionamentos.

Esse desvio encontra sua expressão mais visível em setores da extrema direita que veneram símbolos militares como se fossem garantia moral de autoridade. Fardas, patentes e gestos de força são convertidos em emblemas de pureza política, enquanto a disciplina militar é romantizada como solução para problemas que exigem diálogo, política pública e responsabilidade civil. Trata-se de uma inversão perigosa: confunde-se hierarquia com legitimidade e obediência com virtude democrática.

Em regimes representativos, o candidato eleito não ocupa um cargo para defender projetos pessoais ou fantasias autoritárias, mas para representar interesses coletivos no exercício do mandato para o qual foi democraticamente investido. Sua fidelidade primeira não é — ou não deveria ser — a líderes, grupos ou símbolos de força, mas ao mandato conferido pelo voto.

James Madison advertia que as facções surgem quando interesses particulares se organizam para se sobrepor ao bem comum. Hannah Arendt mostrou como essa lógica corrói o espaço público ao substituir a pluralidade pela obediência; Max Weber alertou para o risco da dominação pessoal travestida de autoridade legítima; e Norberto Bobbio apontou o esvaziamento do Estado de Direito quando a política se converte em instrumento de grupos. Confundir lealdade com alinhamento automático é, assim, reduzir a política à lógica da facção interna, voltada à manutenção do poder.

Nesse cenário, insistir na retórica da lealdade como valor absoluto revela mais um sintoma de empobrecimento democrático do que uma virtude política. Quando o vocabulário público passa a servir à blindagem de decisões equivocadas, o debate se esvazia.

Em democracias maduras, críticas não representam ruptura, mas vitalidade institucional. Reconhecer erros, revisar decisões e prestar contas não fragiliza o poder; ao contrário, confere legitimidade a ele. Quando a lealdade se converte em pretexto para errar sem consequências, ela já não serve à democracia — serve apenas à manutenção do poder.

PROF. DR. JOÃO PAULO VANI

Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados