PAINEL DE IDEIAS

José Dias e a profissão de concordar

O bajulador eficiente não é tolo. Sabe ler vaidades, medir humores, calcular silêncios e oferecer elogios na dose certa. Conhece a fraqueza humana e vive dela

por Prof Dr João Paulo Vani
Publicado em 21/08/2026 às 18:36Atualizado em 21/08/2026 às 18:42
João Paulo Vani (João Paulo Vani)
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Entre os personagens de Machado de Assis, poucos parecem tão familiares quanto José Dias. Não porque seja herói, vilão ou figura grandiosa, mas porque representa um tipo humano que atravessou o século XIX e continua circulando, em pleno século XXI, por instituições, associações, empresas e pequenos centros de poder. José Dias é o homem que fez da concordância uma profissão.

Em Dom Casmurro, ele vive como agregado da família de Bentinho. Não é exatamente empregado, nem membro da casa. Sua permanência depende de uma habilidade delicada: perceber o que esperam dele e ajustar a fala ao desejo de quem manda. José Dias raramente confronta, quase nunca diverge e evita qualquer posição que ameace sua proximidade com a autoridade. Sua arte é dizer ao outro aquilo que o outro gostaria de ouvir.

Machado não o transforma em caricatura. José Dias tem inteligência, vocabulário, refinamento e capacidade de observação. O bajulador eficiente não é tolo. Sabe ler vaidades, medir humores, calcular silêncios e oferecer elogios na dose certa. Conhece a fraqueza humana e vive dela.

Talvez por isso ele continue tão presente. Em quase toda organização existe alguém cuja principal contribuição não é criar soluções, enfrentar problemas ou produzir algo relevante, mas administrar sensibilidades. É aquele que percebe quem está em posição de força e passa a concordar com essa pessoa. Não importa tanto a ideia defendida, mas a direção do vento.

Esse comportamento costuma aparecer disfarçado de diplomacia, lealdade ou espírito institucional. É claro que nem toda concordância é servil. O diálogo exige escuta, respeito e disposição para consensos. O problema começa quando concordar deixa de ser resultado de reflexão e passa a ser estratégia de sobrevivência. Nesse ponto, a fidelidade já não é à verdade ou à instituição, mas à própria permanência.

O mais curioso é que o puxa-saco raramente se reconhece como tal. Na história que conta sobre si mesmo, ele é prudente diante dos exaltados, sensato diante dos radicais, conciliador diante dos conflituosos. Sua falta de convicção aparece como flexibilidade. Sua submissão ganha o nome de inteligência política. Sua covardia se apresenta como maturidade.

Entretanto, instituições saudáveis precisam de gente capaz de discordar. Nenhuma liderança melhora cercada apenas por confirmação. Nenhum projeto amadurece quando toda crítica é vista como ameaça e toda concordância é recebida como prova de fidelidade. O elogio permanente cria uma espécie de isolamento. Desaparecem as vozes incômodas, enfraquece-se a autocrítica e instala-se a ilusão de que tudo está certo.

O bajulador parece inofensivo porque fala baixo e sorri. No entanto, sua presença custa caro. Onde ele prospera, a sinceridade vira imprudência, a crítica vira deslealdade e a lucidez passa a incomodar mais do que o erro. A liderança, privada do contraditório, passa a escutar apenas o eco de sua vontade.

José Dias permanece atual porque não é apenas um personagem. É um mecanismo social. Representa a tentação de trocar autenticidade por conveniência, independência por proximidade e sinceridade por aprovação. Mudaram os ambientes e as formas de poder, mas a profissão de concordar continua valorizada. E, como Machado observaria, não sem alguma ironia, segue encontrando clientes dispostos a contratá-la.

PROF. DR. JOÃO PAULO VANI

Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados.