João Bosco – 80 anos
Celebrar João Bosco é celebrar uma das expressões mais altas da cultura brasileira, cuja obra permanece viva e necessária e, felizmente, ainda em plena construção

Existem raros artistas que transformam a música em linguagem. João Bosco é um deles. Na semana que vem, em 13 de julho, completa 80 anos. Celebra muito mais do que uma data simbólica: comemora uma das trajetórias mais sofisticadas da música brasileira. Dono de uma técnica singular ao violão, de uma interpretação vocal inconfundível e de uma criatividade inesgotável, construiu uma obra que desafia classificações, aproximando samba, jazz, bossa-nova, música latina e ritmos africanos em uma identidade absolutamente própria.
Filho de pai libanês e criado em uma família “musical”. Estudou Engenharia Civil em Ouro Preto, mas percebeu que sua verdadeira vocação estava na composição. Um dos primeiros a descobri-lo foi Vinicius de Moraes, mas a principal parceria, iniciada em 1970, foi com o médico Aldir Blanc. Juntos produziram uma das mais extraordinárias coleções de canções da MPB. São mais de 100. Dela nasceram obras como “O Mestre-Sala dos Mares” (1974), “Kid Cavaquinho” (1975), “De Frente pro Crime” (1975), “Rancho da Goiabada” (1976) e, sobretudo, “O Bêbado e a Equilibrista” (1979), transformada na voz de Elis Regina em um dos maiores sucessos da década de 1980. Elis foi sua maior intérprete.
A música de João Bosco nunca foi feita para o consumo fácil. Seu álbum mais vendido, “Acústico” (1992) vendeu pouco mais de 100 mil cópias. Emplacou 15 músicas como tema de novelas. Tem incontáveis parceiros, mas destacam-se Abel Silva, Capinam, Wally Salomão, Antônio Cícero, Chico Buarque e seu filho, Francisco Bosco.
Sua riqueza melódica, a harmonia refinada e as letras densas exigem atenção do ouvinte, mas oferecem, em troca, uma experiência artística rara. É impecável na afinação e inventa onomatopeias. Interage de forma única com seu violão que parece funcionar como uma pequena orquestra, sustentando ritmos complexos enquanto sua voz conduz narrativas cheias de personagens, humor, crítica social e poesia. Poucos compositores conseguiram unir tamanha sofisticação técnica.
Mais de cinco décadas após seu primeiro disco, João Bosco permanece criativo e inquieto. São mais de quarenta álbuns e um repertório que atravessa gerações sem perder atualidade. Permanece um artista que nunca viveu de nostalgia e se reinventa constantemente.
Num tempo em que a velocidade muitas vezes substitui a profundidade, João Bosco recorda que a grande arte não envelhece. Ela amadurece, ganha novos significados e continua emocionando quem se dispõe a escutá-la. Seus 80 anos representam uma homenagem à excelência, à inteligência musical e à capacidade de transformar sons em memória afetiva. Celebrar João Bosco é celebrar uma das expressões mais altas da cultura brasileira, cuja obra permanece viva e necessária e, felizmente, ainda em plena construção.
TOUFIC ANBAR NETO
Médico-cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras.