PAINEL DE IDEIAS

Homens-afrodites

por Mara Lúcia Madureira
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Mara Lúcia Madureira (Mara Lúcia Madureira)
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Na mitologia greco-romana, as Propétides, filhas de Propoeto, recusaram-se a adorar Afrodite (Vênus). A divindade, ressentida, decide puni-las. Primeiro, força-as a se prostituírem; depois, transforma-as em pedras. Por volta do ano 8 a.C., Ovídio reconta o mito de Pigmalião, em “Metamorfoses”, no qual um escultor de Chipre, decepcionado com as mulheres “moralmente falhas”, esculpe uma estátua feminina segundo suas expectativas: sem imperfeições, contradições ou autonomia. Ele a nomeia Galateia, apaixona-se e passa a se relacionar com ela.

A decepção de Pigmalião decorre de um juízo moral generalizado, não de uma experiência amorosa frustrada. Ele não sofre por falta de amor, mas por incapacidade de viver o encontro humano. Não se apaixona por uma mulher, mas por sua projeção sem alteridade. O mito simboliza a dinâmica de idealização extrema e controle relacional. A recusa da condição humana constrói vínculos artificiais, nos quais a relação só é possível quando a mulher é objetificada.

O desejo de controle sobre o corpo e sobre os comportamentos da mulher revela mais sobre a estrutura interna rígida e intolerante à frustração dos homens do que sobre qualquer característica objetiva feminina. Trata-se de uma tentativa de ocultar sentimentos de irrelevância, inadequação, vergonha, fracasso relacional, vulnerabilidade, experiências de rejeição, baixa autoestima e, sobretudo, de não corresponder ao ideal masculino internalizado.

Dois milênios e três décadas depois, entre a realidade e o desvario, sujeitos desencantados, iludidos e violentos organizam-se em espaços virtuais denominados machosfera. Os digissexuais são escultores de agentes de IA; os rejeitados rancorosos são chamados de incels (celibatários involuntários) e os misóginos, red pills. Quanto mais esses grupos enfatizam controle, superioridade e domínio, mais revelam a fragilidade que tentam ocultar. A hostilidade funciona como defesa contra a sensação de desvalor.

Por força sociopolítica, clericalismo e obscurantismo, algumas mulheres continuam adorando seus afrodites. Outras transformam-se em galateias: corpos sem vontade própria ou posicionamento no mundo, moldados para satisfazer seus pigmaliões. As primeiras abdicam de si mesmas pelo temor à crítica social, enquanto as segundas objetificam-se para tentar corresponder ao ideal quase pedofílico dos senhores red pills: sem pelos, cabelos brancos, rugas, sem experiência sexual, sem história e sem riscos. As Propétides revelam a construção cultural do feminino sob o olhar masculino. Elas representam o medo da sexualidade feminina e a tentativa de puni-la por meios vexatórios.

O mito nos faz pensar sobre a influência do criador (de conteúdos digitais (des)moralizantes, de assistentes de IA e de controles religiosos) sobre a criatura (mulheres-marionetes, formatadas nos moldes tradicionais do patriarcado). Um manda, a outra obedece. Um decide, a outra acata. Um controla, a outra se submete. Uma trabalha, o outro se fragiliza. Uma conquista espaços públicos e autonomia, o outro se sente vulnerável, menos masculino. Uma recusa, o outro a pune. Uma o deixa, o outro a mata. Em vez de elaborar o problema, externalizam violência.

No ambiente digital, quanto mais extremo, maior o engajamento. Um modelo de negócio rentável, no qual a frustração compartilhada evolui para misoginia e legitimação da violência. Nas trends “Caso ela diga não”, usuários simulam reações violentas após uma suposta rejeição em pedidos de namoro ou casamento. A machosfera prospera onde há um vazio de referenciais masculinos capazes de integrar vulnerabilidade e responsabilidade.

Relações humanas implicam convívio com um outro autônomo, capaz de frustrar, divergir e impor limites. Portanto, é fundamental que todas as instituições sociais pratiquem o equilíbrio entre acolher e responsabilizar e, ensinem, desde cedo, a criança a lidar com a rejeição sem transformá-la em agressão, a não basear o próprio valor na validação alheia, saber respeitar limites e negociar divergências.

MARA LÚCIA MADUREIRA

Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras