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PAINEL DE IDEIAS

Flores que adornam caixões

Guerras antigas, com porretes, machados, e as hodiernas, com drones automáticos, sentenciam extermínios sem atestados de óbito

por Romildo Sant’anna
Publicado há 52 minutos
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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Em pesadelos, vejo triunfos da calamidade. Esqueletos armados de foices avançam e pisoteiam escombros enfumados. Em desvãos lunáticos, apáticos, apocalípticos, tanques de aço rangem seus motores, catracas e esteiras. E lançam sementes das flores que adornam caixões. Em ventanias, helicópteros fazem a vigia, convulsos, rodopiando poeiras, metralhas, e alevantando do chão um fedor sonolento, medonho. Mísseis teleguiados lhes abrem canchas, avistando lá na frente a pira funesta da destruição, morticínio. Em formação militar, veículos do extermínio avançam como colheitadeiras e arados nas planícies cinzentas, corrompendo tratados e esmigalhando caules da concórdia e civilização. Em pesadelos, vejo flores que adornam caixões, vestígios turvos, covardes, destituídos da misericórdia.

As flores que adornam caixões, como valas de defuntos, têm aspectos modorrentos do luto nos rituais da inclemência. Põem tarjas tão funestas ao que é morto, que já nem são os lírios dos campos radiando primaveras, vicejando juventudes e o que restou do Éden, mas emblemas enfermos do desprezo, solitário, impenetrável, nos porões de vultos dantescos. As flores que adornam caixões, como os sacos negros de plástico em fileiras, extinguem rastros de luzes, milagres da ressurreição. As flores que adornam caixões são espectros que se alevantam das tumbas como totens sobrenaturais e explodem, e emitem urros com semblantes aflitos, contornos errantes, contorcidos, em meio à orgia dos bagulhos, desejos de dinheiros, palácios da cobiça e insolências contra a humanidade.

Ah, vivemos num tempo sombrio! – exclamamos com Bertolt Brecht –, assistindo pelos canais aos horizontes em ruínas, com seres esquálidos, alquebrados, irem dar no odor dos lixões e atoleiros. Que tempo é esse em que uma fala sobre o encanto das flores e beija-flores semelha ao desatino, pois implica emudecer sobre tantos homicídios em massa, horrores? A tragédia encenada pelas guerras põe seus ovos no intestino dos tiranos. Não produz a morte abençoada pelos deuses, a unir justos e injustos, rigorosos e compassivos no ciclo milagroso da vida.

Guerras antigas, com porretes, machados, e as hodiernas, com drones automáticos, sentenciam extermínios sem atestados de óbito. Despejam corpos nas caldeiras do diabo, pavilhões soturnos, incivilizados, e onde enfloram flores que adornam caixões. Provocam as gargalhadas de Lúcifer. Aderem-se a imagens de desterros, enterros. Assim passamos o tempo que nos é concedido! Quando pegarem os prontuários de Kiev, Teerã, Jabalya e outras cidades, imploramos desde agora, envergonhados, lembrando-nos outra vez de Brecht: Os que vão nascer das pias que nos afogaram, quando vier o tempo de ser o homem amigo do homem, esqueçam da nossa baixeza e se lembrem de nós com piedade. E, se for possível, sem ranços do desprezo.

ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos