Festa no céu
Sua despedida foi demais. Amparado pelos arcanjos, adentrou ao Éden, com a missão de manter atualizada a população celestial do que se passa na Terra

Fechou sua última edição com o êxito que lhe era peculiar, mas não calou sua voz. Mais uma vez nos surpreendeu, não da forma habitual, mas de uma extravagância jamais imaginada pelos simples mortais.
Aterrissou no infinito azul, amparado por noventa e cinco anjos, os quais encarregou de sua bagagem terrestre, prensada em anos.
Foi recebido com festa. Lá reencontrou a sua amada, que assistia sorrindo ao rebuliço causado com a inusitada celebração à grande figura do homem das letras negras, que traduzia a cidade nas páginas pálidas do papel jornal.
De imediato, solicitou uma audiência com o Todo-Poderoso. No seu singular modo de divulgar às pessoas o dia a dia da cidade, do Brasil e do mundo, havia vislumbrado uma maneira exótica de se despedir da terra natal.
Atendido, explicou as razões do que pretendia fazer e, com o consentimento do Criador, encarregou os querubins de ajudá-lo na difícil tarefa de, mais uma vez, contribuir para alumiar a ignorância humana.
Lembrou a Deus, que sempre esteve atento ao pulsar do mundo, que o desconhecimento das questões históricas pelas quais passou e passa a humanidade impacta diretamente em nossa avaliação pelo que acontece na sociedade. Além disso, e em consonância com Sigmund Freud, que em mil novecentos e vinte e sete escreveu: quanto menos um homem conhece sobre o passado e o presente, mais inseguro será o seu julgamento sobre o futuro, entendeu que era preciso esclarecer a verdade dos fatos. Todas essas questões, disse ele, o levaram a escolher sua profissão, da qual muito se orgulhava.
Então, na tarde de sol e calor, como sempre inclementes por aqui, fomos surpreendidos por uma estranha chuva. Milhares de folhas escritas dançavam ao sabor do vento forte, aterrissavam nas praças, avenidas, por toda parte. Crítico, aproveitou a ocasião para cobrir de letras aquela imensa capivara que, com certeza, achava de gosto duvidoso, a “enfeitar” a Represa.
A cidade estupefata recolhia as páginas ora coloridas, ora em branco e preto que ondulavam num misterioso balé de notícias, ora novas, ora antigas. Contavam o tempo em caracteres negros, ora multicores, que se sucederam em décadas de passeios pelas tintas e letras, com as quais nos contava ele, sobre o dia a dia da cidade, do interior e do país.
Lá do alto, os anjos observavam o espanto causado pela tempestade de informações levadas à população de modo misterioso. Literatura em notícias.
Tal qual na Festa do Sertão, quando eu o percebi, no centro da sala, sentado e quietinho a observar a reação dos convidados que lá foram conhecer o novo formato da sua criatura, sorria levemente com o impacto causado pela providencial oportunidade de poder, pela última vez, exercer sua alegria em textos impressos.
Sua despedida foi demais. Amparado pelos arcanjos, adentrou ao Éden, com a missão de manter atualizada a população celestial do que se passa na Terra, instante em que as portas da cúpula azul se fecharam e as últimas folhas com um editorial em branco plainaram sobre nós.
Dr. Norberto, não me pergunte como, mas sei que foi assim.
MERLI DINIZ
Professora, advogada, poeta e cronista. Vice-coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ª Subseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.