Férias, folia e barbárie
Toda vez que a violência é relativizada, ela encontra terreno fértil para se repetir e, quando se repete, torna-se consequência. Que as águas de março fechem o verão com mais humanidade

Em fevereiro tem carnaval. O Brasil, palco do maior show da Terra, exibiu também uma sequência de espetáculos de horrores — sintomas de um corpo coletivo acometido por grave enfermidade moral.
Na Copa do Brasil, jogadores do Vasco-AC entraram em campo vestindo camisas com os nomes de colegas presos sob suspeita de estupro coletivo. No mesmo jogo, a estreia de Bruno Fernandes, condenado pelo assassinato de Eliza Samúdio, reforçou a dimensão simbólica do que se comunica. A legalidade de sua presença não apaga o que ela representa. O futebol não é neutro. Normalizar determinadas presenças, sem reflexão crítica, é anestesiar a consciência social.
No Campeonato Paulista, o zagueiro Gustavo Marques declarou que “não dá para colocar mulher para apitar jogos importantes”, referindo-se à árbitra Daiane Muniz. A desqualificação baseada em gênero é uma tentativa de expulsar mulheres de espaços conquistados com competência e excelência. A retratação posterior apenas confirma que o machismo ainda se sente confortável para falar alto antes de pensar.
Se o esporte expõe a cultura, o Judiciário expõe a estrutura. A decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, ao absolver um homem de 35 anos, acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos, sob o argumento de “vínculo afetivo consensual”, é revoltante. O Código Penal é claro: menores de 14 anos não possuem capacidade jurídica para consentir. Não há romantização possível para tal assimetria de poder. Se houve anuência familiar, compete ao Estado proteger. Se houve experiência sexual anterior, o abuso começou antes. Criança não consente com violência sexual, e nenhuma família pode legitimar o que a lei e a ética repudiam.
Voltando a janeiro, como se não bastasse a violência contra mulheres e crianças, assistimos também à brutalidade cometida contra o cachorro Orelha, em Santa Catarina, espancado por adolescentes. A comoção pública foi intensa, mas a resposta institucional revelou-se frágil. A sensação de impunidade expõe outro dilema: estamos educando ou apenas reagindo tardiamente a uma cultura que banaliza a agressão? A violência que se inicia contra animais indefesos pode gestar a sociopatia. Crueldade não nasce adulta; é cultivada.
Quando precisamos reafirmar o óbvio — que infância não se negocia, que mulheres não são incapazes por definição biológica, que violência não é afeto e que crueldade não é travessura — algo está profundamente errado na estrutura social.
Todos esses episódios se conectam pela tendência de proteger o forte e relativizar a violência. A vítima torna-se detalhe. A mulher continua sendo alvo. A criança vira argumento interpretativo, e o animal, entretenimento cruel.
Não é aceitável que o esporte flerte com a banalização do estupro. Não é admissível que a competência feminina ainda precise ser defendida contra ataques primários. Não são toleráveis decisões judiciais que fragilizem a proteção de crianças sob construções retóricas que distorcem o sentido da lei. E não é civilizado tratar atos de crueldade como desvios menores quando são sinais precoces de desumanização.
Não nos deixemos anestesiar. Diante de reiteradas aberrações e rachaduras no pacto civilizatório, não nos acostumemos. Toda vez que a violência é relativizada, ela encontra terreno fértil para se repetir e, quando se repete, torna-se consequência. Que as águas de março fechem o verão com mais humanidade.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras