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PAINEL DE IDEIAS

Faça o que eu digo, não faça o que eu faço!

Quando uma pessoa se identifica fortemente com um grupo, tende a aceitar suas incoerências mais facilmente do que as do adversário

por Mara Lúcia Madureira
Publicado em 01/07/2026 às 20:40Atualizado em 01/07/2026 às 21:00
Mara Lúcia Madureira (Mara Lúcia Madureira)
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Quando uma mulher constrói uma carreira pública ou assume cargo de liderança graças aos direitos conquistados pelas lutas feministas, como educação superior, participação política e autonomia profissional, e, do alto dessa posição, critica os movimentos que possibilitaram sua trajetória, defende a submissão e a restrição de tais possibilidades para outras mulheres, há um grave problema moral.

Algumas lideranças femininas se vendem como mulheres diferenciadas. Encarnam o papel de obedientes e virtuosas para obterem reconhecimento político e fortalecerem sua autoridade. Reivindicam direitos para si e defendem o espaço doméstico para outras, pois se consideram mais capazes de exercer a liberdade com a responsabilidade do que as outras. Elas comunicam a mensagem de que conseguiram por terem feito as escolhas certas, e as outras fracassaram porque rejeitaram tais valores.

Em sociedades polarizadas, confrontar o feminismo mobiliza o eleitorado, atrai financiamentos, amplia a exposição midiática e fortalece a identidade de determinados grupos. A controvérsia produz visibilidade e capital. Os lucros envolvem prestígio, cargos de poder, contratos, livros, palestras, canais em redes sociais, cursos e campanhas. Mas não sejamos injustas. Nem todas são movidas por cálculo oportunista; algumas são movidas pela irracionalidade. Para essas, a conclusão se forma antes da análise racional.

O cérebro evoluiu para garantir a sobrevivência pessoal e a unidade do grupo, não para buscar a verdade. Em grande parte da História, a exclusão poderia significar a morte. Por isso, nos grupos primitivos, a identidade coletiva é mais importante do que a coerência lógica. Quando a identidade de uma pessoa se (con)funde com uma ideia, a crítica à ideia é percebida como uma ameaça ao próprio sujeito ou ao grupo ao qual ele pertence. Nesse momento, o cérebro não questiona se a crítica ou a ideia é verdadeira, mas como irá defender-se, isto é, como irá defender sua crença.

Assim surgem os vieses cognitivos. A pessoa procura informações que confirmem suas crenças, minimiza evidências contrárias, cria justificativas para inconsistências e aplica critérios diferentes para aliados e adversários. Esse processo costuma ocorrer de forma inconsciente. O pensamento é guiado pela necessidade de proteger a identidade e garantir o pertencimento.

Para algumas mulheres, a identidade religiosa, moral ou política é mais importante do que a identidade de gênero. A coesão é prioridade, mesmo que isso implique apoiar normas que reduzam a autonomia feminina. A lealdade ao grupo supera a sororidade. A identidade ideológica pesa mais do que a lógica. Quando uma pessoa se identifica fortemente com um grupo, tende a aceitar suas incoerências mais facilmente do que as do adversário. A contradição deixa de ser um problema e se transforma em estratégia ou exceção.

Não precisa ser muito inteligente para perceber que, se uma mulher exerce poder, influencia milhões de pessoas e desempenha o protagonismo feminino que ela preconiza como indesejável para outras mulheres, há uma ironia difícil de ser contornada. Levantar bandeiras conservadoras sobre gênero como prova de que tais ideias não são misóginas não deixa de sê-las apenas porque são defendidas por uma mulher.

A contradição dessas lideranças está em apresentar sua trajetória como prova de que o feminismo seria desnecessário. Sua presença na política só é possível porque outras mulheres desafiaram a exclusão histórica do espaço público. Elas sobem a escada construída por feministas e, quando chegam ao topo, condenam a escada.

MARA LÚCIA MADUREIRA

Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras