Diário da Região
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Exéquias a um defunto sem importância

A viúva não parecia propensa ao choro ou alguma coisa parecida, apenas sentou-se ao lado do caixão, concedendo-se tão somente o uso de um véu negro sobre a cabeça

por José Luís Rey
Publicado há 5 horasAtualizado há 4 horas
José Luís Rey (Divulgação)
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José Luís Rey (Divulgação)
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Quando os socorristas chegaram à casa humilde e envelhecida a poucos quarteirões do centro da cidade, o velho jazia na cama há pelo menos três horas, quando o que supõe-se ter sido um infarto fulminante interrompeu, aos 85 anos, uma vida dedicada à criação de passarinhos engaiolados que agora reunia uma população de vinte – ou mais – canários da terra, avinhados, tentilhões e pássaros-pretos numa sinfonia intensa de trinados e assovios intermitentes, que muitas vezes eram capazes de desfazer a paciência da velha moradora, mas não nesse dia. A casa estava triste, os pássaros engaiolados pareciam indispostos à algazarra, desde que a velha se deu conta do marido inerte na outra beirada da cama de casal.

Assim que os socorristas saíram, chegou o pessoal da funerária, trazendo um caixão escuro, algumas “Palmas de Santa Rita” para enfeitar o morto e meia dúzia de cadeiras para espalhar na sala, onde – segundo recomendações do velho – deveria ser realizado o velório…

- Nem precisava de cadeiras, ele não tinha mais amigos, não vai aparecer ninguém aqui, talvez um ou outro vizinho – observou a viúva, conformada com a baixa popularidade do velho.

O caixão, colocado sobre uma mesa de fórmica amarela, arrastada da cozinha para a sala, cercada pelas cadeiras emprestadas pela funerária, por duas poltronas puídas pelo uso e por uma mesinha minúscula, onde a velha tencionava deixar a garrafa térmica de café e algumas poucas xícaras, caso fosse o caso de alguém aparecer.

A viúva não parecia propensa ao choro ou alguma coisa parecida, apenas sentou-se ao lado do caixão, concedendo-se tão somente o uso de um véu negro sobre a cabeça – o mesmo que costumava usar nas idas à missa de domingo, às quais nos últimos vinte anos acostumara-se a comparecer desacompanhada, desde que o velho decidira ficar em casa nas manhãs de domingo tratando dos passarinhos engaiolados.

Manteve-se o tempo todo sentada ao lado do defunto, exceto nos breves minutos em que decidiu colher mais algumas flores disponíveis no pequeno jardim à frente do alpendre, para reforçar a decoração de Palmas de Santa Rita no caixão. Em outro lapso rápido, passou um coador de café, abasteceu a garrafa térmica e permitiu-se beber uma xícara – ajudaria no combate ao sono, porque pretendia velar o marido até a manhã seguinte, quando os homens da funerária voltariam para o sepultamento no São João Batista.

Ao cair da noite, levantou-se para acender a luz do alpendre e só então notou que o serviço fúnebre incluíra um aviso luminoso, instalado ao lado do portão de entrada, na calçada: “Luto em família”. Ao menos, o aviso serviu para desaconselhar a molecada de jogar futebol no meio da rua, como fazia nos começos da noite.

Às seis horas da tarde, lembrou-se de ligar o rádio para acompanhar a “Hora da Ave-Maria”, com a Irmã Izaltina Maria, “missionária de Jesus Crucificado”.

Ninguém apareceu até o romper da aurora. O velório do velho transcorrera sem barulhos, sem piadas, sem a algazarra dos passarinhos engaiolados e sem a gritaria da molecada jogando bola na rua.

Já passava das sete quando a viúva se levantou para abrir a porta e a janela, que estiveram fechadas até então por causa do friozinho da madrugada. Restava-lhe agora aguardar a volta da funerária para então seguir até o cemitério.

Por um instante fugaz, lembrou-se de que o velho permaneceria por lá, mas que ela – “infelizmente”, como lhe ocorreu na hora – ela teria que voltar!

JOSÉ LUÍS REY

Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos