Diário da Região
PAINEL DE IDEIAS

Estranhas cotoveladas

Impossível dissociar a cinematografia do artista botucatuense-rio-pretano da contextura e referências ao próprio autor e ao cinema nacional

por Romildo Sant’anna
Publicado há 12 horas
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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“Cotoveladas” são golpes corporais sempre doídos, também atos de descortesia ao chamar atenção para alguma coisa. No entanto, as invisíveis pancadas em “Estranhas Cotoveladas” (2025), de Reinaldo Volpato, são o “avesso do avesso” e por isso estranhas, consonantes à inteligência autoral do artista em 50 anos de produção criativa. Em suas obras de ficção e documentais há evidentes acenos à delicadeza e concórdia; com elas, o quase enfrentamento a atitudes ásperas que depauperam e enfeiam a realidade. Nesse sentido, o filme compendia a vocação ideológica-estilística do autor.

A narração prima pela acuidade técnica, o cerzimento dos quadros fotográficos, lirismo bucólico e cenográfico, o bom desempenho dos atores em contida prosódia regional, a atinada montagem e criação de eixos rítmicos a encadearem suave fluência. Para a formatação de ideias, o enredo apoia-se no universal triângulo amoroso, motivo recorrente desde as artes greco-romanas, sempre mesclando desejos, poder e rivalidades. No entanto, ao optar pelo idealismo romântico do “final feliz”, o amor impossível de Píramo e Tisbe (poetizado por Ovídio nas “Metamorfoses”) ou de Romeu e Julieta (na tragédia de Shakespeare) não se efetiva com a morte dos amantes. Ao contrário, as sagas de Tiê Paixão e Ella Trieste inspiram vida, conciliação.

Inda que procedimentos estéticos de Reinaldo Volpato resvalem no cineasta Cacá Diegues e seu nacionalismo etnocultural, “Estranhas Cotoveladas” é muito menos o realismo aventuroso de “Bye Bye Brasil” (apogeu de beleza da expressão nacional) e mais uma saudação afetiva: “Olá, Brasil!”. Os planos em panorâmica descerrando cenários de montanhas inóspitas nos antológicos faroestes de John Ford são agora paisagens verdejantes, serenas, em conjunção com o protagonista e sua lavoura orgânica, ecossistêmica. Outros efeitos da ficção tradicional atuam na composição da linguagem: o mito bíblico de Davi e Golias, no caso o pequeno agricultor Tiê Paixão e seu rival Pedro Álvares, herdeiro arrogante do coronelismo encalacrado. No filme, o desfecho dramático não se dá pela extinção do oponente, mas por sua expiação moral e pedagógica junto à sociedade.

Impossível dissociar a cinematografia do artista botucatuense-rio-pretano da contextura e referências ao próprio autor e ao cinema nacional. Algumas são, como falei no início, o “avesso do avesso” em Caetano Veloso. Nesse contexto, Glauber Rocha se insinua no revés de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Enquanto no filme do genial tropicalista vigoram a aridez e prepotência autoritária e patrimonial dos fundões brasileiros, tendo o signo Sol como arquétipo da macheza, em “Estranhas Cotoveladas” repetem-se imagens da Lua a simbolizarem energia sensorial, emoção, languidez e feminilidade. Esse procedimento sintetiza o pulsar criativo em Reinaldo Volpato.

ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos