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“Dois” - Quarenta!

Em 1986, o Legião Urbana lançou “Dois” que demonstrou algo raro: a maturidade precoce de uma banda nova. Quarenta anos depois, o álbum permanece como vértebra central do rock brasileiro

por Toufic Anbar Neto
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Toufic Anbar Neto (Toufic Anbar Neto)
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A banda Legião Urbana vinha de um grande sucesso, o seu primeiro álbum tinha vendido 1,2 milhões de cópias. Continha músicas que se tornaram grandes suces sos tais como “Será”, “Geração Coca-Cola”, “Ainda é cedo” e “Por enquanto”. Provavelmente, o maior desafio de quem faz sucesso no primeiro disco é lançar o segundo com a mesma qualidade e relevância. Mas o grupo conseguiu a façanha.

Em 1986, o Legião Urbana lançou “Dois” que demonstrou algo raro: a maturidade precoce de uma banda nova. Quarenta anos depois, o álbum permanece como vértebra central do rock brasileiro . Não foi apenas sucesso, mais de um milhão de cópias, foi afirmação estética. Se o primeiro disco buscava um lugar ao Sol, o segundo os habilitava a figurar entre os grandes do cenário musical brasileiro.

A chamada “síndrome do segundo disco” rondava a banda. Havia expectativa da gravadora, da crítica e deles próprios. Renato Russo chegou a cogitar um álbum duplo, “Mitologia e Intuição”. Não aconteceu. A gravadora recusou a ideia. O repertório foi enxugado, mas a ambição permaneceu. As músicas foram gravadas em 16 canais, com mixagens quase artesanais. O resultado técnico ficou muito bom, ao mesmo tempo coeso e com a propriedade de transmitir emoção e tensão ao ouvinte.

Do ponto de vista temático, migraram do discurso frontal contra o mundo e contra tudo para algo mais afetivo e narrativo. “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Índios” e “Quase sem Querer” tornaram-se clássicos porque falam de vínculos, frustrações e escolhas. A crítica percebeu. O jornal O Estado de S. Paulo escreveu que havia “carne. Sangrando.” Era isso: densidade sem ornamento, intensidade sem grito . Uma obra-prima.

Do ponto de vista instrumental, o grupo mudou os seus conceitos . Violões ganham espaço, efeitos passam a ser aceitos, fragmentos se transformam em canções inteiras. “Andrea Doria” carrega a memória do naufrágio do SS Andrea Doria como metáfora elegante de colisões humanas. “Daniel na Cova dos Leões” abre o disco com ruídos de rádio e ecos ideológicos, enquanto “Plantas Embaixo do Aquário” respira Guerra Fria. Tantas mudanças de conceitos são incomuns em uma banda iniciante, principalmente com um resultado exitoso.

Dois é, talvez, o disco mais equilibrado da Legião: denso sem ser hermético, popular sem ser raso . Quarenta anos depois, continua a nos lembrar que crescer não é abandonar a inquietação — é refiná-la. E poucas bandas fizeram isso com tamanha precisão. O grupo é o que mais vendeu discos de catálogo no mundo , mais de 25 milhões. Mesmo desfeito onze dias após a morte de Renato Russo em 1996, continua a vender 250 mil discos todos os anos, sem contar sua forte presença nas plataformas de streaming. Para sempre figurará no panteão da glória do rock brasileiro, com discos e músicas atuais.

TOUFIC ANBAR NETO

Médico-cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras