Dez anos sem Umberto Eco
O notável pensador, formado originalmente nos quadros da Ação Católica, tornou-se um combatente pela liberdade de pensamento, contra o fascismo e em oposição ao imperialismo

Umberto Eco (1932 – 2016) foi um grande humanista, um dos principais intelectuais do final do século 20 e início do 21, professor da prestigiosa Universidade de Bolonha, jornalista, bibliófilo e autor de vasta obra literária, sociológica e política. O notável pensador, formado originalmente nos quadros da Ação Católica, tornou-se um combatente pela liberdade de pensamento, contra o fascismo e em oposição ao imperialismo. Sua obra sobre a semiótica foi de grande relevância científica e sua literatura encantadora, erudita e densa, a qual encantou multidões, traduzida mundo afora e levada ao cinema, com grande sucesso. Na teoria literária e estética, equiparou-se ao grande Benedetto Croce, embora dele discordando quanto à amplitude da matéria. Segundo Eco, “o valor estético se realiza segundo leis de organização interna às formas e é, por conseguinte, autônomo”.
Eco foi ainda um requisitado conferencista a encantar o meio acadêmico com sua visão crítica (e irônica) da sociedade atual e, em particular, das desgraças do mundo político. A sua biblioteca é um monumento ao saber. Como diretriz para o seu acervo, adotou a concepção japonesa do tsundoku, segundo a qual os livros devem ser adquiridos pelo seu potencial intrínseco e não pela disponibilidade do bibliófilo em lê-los todos. Por isso, segundo Umberto Eco, os livros devem estar disponíveis. Segundo escreveu, “as bibliotecas são locais espirituais, santuários do saber, templos da sabedoria”, devendo proporcionar descobertas intelectuais.
Foi exatamente o tema das bibliotecas pessoais que dominou nossa conversa, em italiano, no encontro que tivemos na Feira do Livro de Frankfurt, no dia 9 de outubro de 2014, onde ambos proferimos conferências distintas sobre nossos escritos, como relatei em minha autobiografia. Também falamos sobre os males do imperialismo, sobre o combate ao fascismo e a respeito da mediocridade do conteúdo da mídia social. Presente esteve também o nosso amigo comum, o Prof. Dr. Luiz Alberto Moniz Bandeira (1935 – 2017), um dos maiores intelectuais brasileiros de nossos tempos.
A respeito de política, Umberto Eco escreveu que “o fascismo não possuía nenhuma quintessência, nem mesmo uma única essência”. Na mesma obra, indica que “o neofascismo surge da frustração individual e social”. Isso explica por que uma das características típicas do fascismo histórico tenha sido o apelo às cases médias frustradas, desconfortáveis com as pressões dos grupos sociais subalternos. O neofascismo pode, portanto, ser definido como ‘irracionalismo’. Sobre o imperialismo estadunidense, Eco escreveu que “o colapso do Império abre um período de crises econômicas e de carência de poderes...”
Da vasta obra literária de Umberto Eco, o livro que mais me fascina é ‘O Nome da Rosa’, de 1980, seu romance exordial, cujo enredo histórico compreende uma narrativa medieval ambientada nas relações monasteriais endógenas, sempre ameaçadas pelo hostil ambiente externo e pelos múltiplos vícios humanos. O romance apresenta mistérios instigantes, adensados por uma erudita estrutura cultural daquele período, que revela tanto a afinidade do autor pelo tema medieval, como o seu profundo conhecimento histórico. Aquele livro teve mais de 50 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Eu ainda gosto de ‘Número Zero’, de 2015, seu romance derradeiro, a respeito do mau jornalismo numa Itália hodierna, decadente, degenerada e desmoralizada pelo imperialismo e políticos corruptos.
DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Escritor polígrafo. Ex-presidente da UBE. Da Academia de Letras de Portugal. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras