De um bolo a outro
No fim das contas, a vida não acontece apesar dos ciclos, mas por causa deles. Entre o açúcar e o pó, entre o futebol e o trenzinho, a gente cresce

Fevereiro, em casa, nunca foi só o mês mais curto do ano. Com os dois filhos fazendo aniversário, o tempo traz transformações que os outros meses desconhecem. Este ano, o calendário desenhou contrastes ainda mais marcantes. Antes mesmo da primeira velinha, a Quarta-feira de Cinzas trouxe sua marca de silêncio e reflexão. Mas, no dia 20, o cronômetro das celebrações disparou novamente. O mais velho fez doze anos. Vi, diante dos meus olhos, a infância arrumar as malas e partir sem olhar para trás. A voz antes aguda agora tropeça em novas frequências. Os brinquedos não são mais protagonistas, substituídos por telas, fones e um desejo de privacidade. Sua festinha deu o tom da nova fase: quis uma tarde de churrasco e futebol com os amigos. No lugar da fantasia ou do brinquedo, havia o grupo, a afirmação de quem começa a conquistar o próprio espaço. Ele atravessou o portal, entrou no território da adolescência.
Apenas oito dias depois, o ciclo se completa com o mais novo, que chega aos seus 8 anos. Se o mais velho é o anúncio da mudança, o caçula é a permanência. Ele ainda habita a "plena infância", aquele território onde os bonecos têm vida e um abraço pode curar joelho ralado. Sua festinha terá trenzinho, correria sem destino e brincadeiras que só fazem sentido para quem ainda vê o chão como um mapa de tesouros. Ele é o frescor do agora, a risada sem filtro, a prova de que a magia ainda mora nos detalhes.
A Quaresma, que começou dias antes, mostra um contraste potente: de um lado as cinzas, lembrando da transitoriedade da vida, que nos convida ao "menos", ao jejum e à poda; do outro, os parabéns, a celebração exuberante do "mais um ano". O contraste não é, porém, contradição. Observando meus filhos, um que se despede do mundo infantil e outro que nele ainda mergulha com tudo, percebi que é apenas completude. A vida é feita dessa dualidade. Para que o mais velho floresça na adolescência, ele precisa se desfazer de sua "pele" de criança. É uma poda natural. O abrir mão da segurança do colo para experimentar a insegurança dos próprios passos. Isso é, em essência, o espírito quaresmal: o despojamento necessário para que algo novo surja. Entender que a vida é feita de ciclos de fartura e de recolhimento traz paz. O aniversário nos ensina a agradecer pelo que recebemos. A Quaresma, a lidar com o que devemos deixar ir.
Cortei o bolo do mais velho e logo cortarei o do mais novo. Enquanto isso, com a consciência de que somos pó e ao pó voltaremos, observo o caminho que eles têm pela frente. Um começa sua própria quarentena de autodescoberta, um tempo de silêncios mais longos e de questionamentos que antes não existiam. O outro ainda está por descerrar a cortina da infância. Compreendo que o amadurecimento deles (e o meu, que assisto a essa metamorfose) exige ambos os ritos. No fim das contas, a vida não acontece apesar dos ciclos, mas por causa deles. Entre o açúcar e o pó, entre o futebol e o trenzinho, a gente cresce.
SÉRGIO CLEMENTINO
Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras