Coração sob as tábuas
A aproximação entre ficção e realidade não nasce do gosto pelo macabro, mas da crença de que, ocultado o corpo, também se apaga a existência de quem o habitou

E, mais uma vez, a realidade parece alcançar uma imagem que a literatura já conhecia. Em “O coração delator”, de Edgar Allan Poe, o narrador tenta convencer o leitor de que não é louco. Conta como matou um velho, esquartejou o corpo e escondeu os restos sob as tábuas. Tudo lhe parecia perfeito até ouvir um ruído semelhante ao bater de um coração, que cresceu até arrancar-lhe a confissão.
Foi desse narrador que me lembrei ao ler, neste Diário, as notícias sobre a mulher encontrada esquartejada em lixeiras do Estoril. Mais de dez dias depois, ela continuava sem nome. Sem as mãos, com o rosto desfigurado e o corpo reduzido a partes dispersas, dependia do DNA e da arcada dentária para recuperar aquilo que o crime tentou destruir: sua identidade.
A aproximação entre ficção e realidade não nasce do gosto pelo macabro, mas da crença de que, ocultado o corpo, também se apaga a existência de quem o habitou. Em Poe, o assassino se orgulha de haver dominado os vestígios; no Estoril, segundo a investigação, as partes foram separadas e descartadas. A violência avança sobre a unidade da vítima, como se desfazer o corpo permitisse desfazer sua história.
Nas aulas de Psicanálise e Educação, durante a graduação, aprendi com Freud que a civilização não dissolve nossas pulsões destrutivas, apenas procura submetê-las à vida em comum. Sob a razão e as convenções permanecem forças capazes de romper os vínculos que nos fazem reconhecer o outro como semelhante. Talvez por isso crimes assim provoquem um horror particular: revelam não apenas a capacidade humana de matar, mas uma coisificação absoluta. Não se trata apenas de desumanizar, muito menos de animalizar, porque o animal ainda conserva vida e sensibilidade; trata-se de negar ao outro a condição de sujeito e reduzi-lo a matéria que pode ser cortada e lançada fora.
A palavra “monstro” surge depressa diante desses atos. Expressa nossa repulsa, mas também nos alivia, pois coloca o mal fora da humanidade. Crimes, porém, são cometidos por seres humanos, e admitir isso não atenua responsabilidades; obriga-nos a encarar a fragilidade dos diques entre a convivência e a barbárie. O narrador de Poe assusta porque fala, calcula, dissimula e se julga lúcido: sua monstruosidade nasce dentro de sua humanidade.
Há, nesta crônica, uma escolha deliberada: não conceder a quem praticou o crime o centro da narrativa. O que importa é refletir sobre a violência pela qual uma mulher foi tratada como matéria que poderia ser fragmentada e descartada, enquanto a cidade procura reunir vestígios e reconhecer naqueles restos a pessoa inteira que existia antes do crime.
No conto, o assassino não tem nome, mas tem voz: organiza sua versão e tenta conduzir o leitor, até ser traído pelo coração que faz retornar aquilo que julgava enterrado. Entre nós, ocorre o inverso: a vítima tinha nome, história e voz, mas o crime procurou apagá-los, deixando à cidade apenas a expressão “mulher não identificada”. Se a ausência de nome do narrador concentra nele a inquietação do mal, a ausência de identidade da vítima prolonga a violência do apagamento, que agora precisa ser interrompida. Talvez por isso o coração continue a bater no desconforto de uma cidade que não deveria aceitar que alguém desapareça duas vezes: primeiro no corpo, depois no nome. Enquanto não soubermos quem ela era, algo permanecerá sob as tábuas de nossa normalidade, lembrando-nos de que a humanidade se revela tanto no horror que produz quanto no esforço de restituir ao outro aquilo que tentaram lhe arrancar.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados.