Catadão
Na última Copa, a de 2022, de 26 jogadores, só dois atuavam no Brasil. Na próxima, corremos o risco de todos atuarem fora do país

Amo futebol. Comecei a acompanhar de verdade as Copas do Mundo de Futebol a partir de 1974. Eu tinha dez anos. E sempre prestei atenção a um detalhe curioso: quando começou a debandada dos jogadores brasileiros. Até então, eram raros os jogadores brasileiros que tinham jogado no exterior. Na década de 1970, eram raras as transferências e poucos os jogadores que tinham feito sucesso.
A última seleção brasileira que disputou a Copa e tinha só jogadores atuando no país foi a de 1978. A de 1982 tinha dois (Falcão e Dirceu). A de 1986 também tinha dois (Edinho e Júnior), mas três, incluindo Zico, tinham voltado há pouco da Europa. Na Copa de 1990, dos 22, dez jogavam no Brasil e doze jogavam fora do país. Foi quando o êxodo de “pé-de-obra” se intensificou. Não só para a Europa. Japão, países árabes e as Américas eram também destino dos nossos jogadores. Em 1994, onze fora e onze daqui. Mas tínhamos alguns craques no time. Em 2002, o último suspiro. Treze daqui e nove de fora. Craques para todo lado. Todos no seu auge. Ganhou e encantou. A partir de então, rarearam os craques. Na última Copa, a de 2022, de 26 jogadores, só dois atuavam no Brasil. Na próxima, corremos o risco de todos atuarem fora do país.
Percebo que vários fenômenos contribuem com a minha baixa expectativa de que ganhemos qualquer coisa nos próximos anos. Só para citar alguns: a diferença abissal entre as estruturas do futebol europeu e do brasileiro. Estrutura não apenas física, mas também organizacional e de gestão. Raros clubes brasileiros podem afirmar que estão no mesmo patamar. Associe com a má gestão do nosso futebol. Não me alongarei neste quesito. Nem precisa. O dinheiro é outro também. O poderio econômico de alguns clubes, adquiridos por algum xeique árabe ou algum magnata russo assusta até os próprios europeus. Falha na formação de jogadores. Eles mal atuam aqui no Brasil e já vão embora. Em 2025 foram mais de 1100. Alguns são convocados sem a torcida nunca ter ouvido falar do atleta.
Existe o declínio mental e psicológico de alguns jogadores “de alto nível”, mimados e frágeis emocionalmente. Defasagem técnica dos nossos jogadores. Calendário insano e sobrecarregado. A idade vai nos tornando menos tolerantes diante de conversa fiada. Fui mal-acostumado desde criança. Vi jogar: Pelé, Ademir da Guia, Zico, Rivelino, Sócrates, os dois Ronaldos, Romário e tantos outros. Aborreço-me com o barulho em torno de figuras infladas pela mídia.
Com isso tudo, virou hábito no Brasil convocar às vésperas das competições jogadores que brilham nos seus clubes, mas não funcionam na seleção, mal se conhecem, nunca jogaram juntos, fazem meia dúzia de treinos e pronto. Temos um catado. Não uma equipe. Isso não pode dar certo. O Brasil é candidato, não favorito. Acostumem-se com isso!
TOUFIC ANBAR NETO
Médico-cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras