Cartola II – 1976 – 50 anos
Passados 50 anos, continua a influenciar novas gerações de sambistas e a deleitar os amantes do samba em sua forma mais autêntica e poética

Em 2026, comemora-se o lançamento do principal disco de Angenor de Oliveira, o Cartola, considerado um dos maiores sambistas de nossa história. Sobre ele, escreverei em outra ocasião. O disco é uma verdadeira obra-prima. Possui um forte componente emocional, uma riqueza e muito apuro nas composições, combinando tradição e inovação. Contém clássicos como “As rosas não falam”, “O mundo é um moinho”, “Preciso me encontrar”, “Peito vazio”, “Ensaboa mulata” e “Senhora tentação”. Conta com a participação especial de sua filha de criação, Creusa, o flautista Altamiro Carrilho e o sambista Elton Medeiros, marcando o ritmo com uma caixa de fósforos.
A história do seu maior sucesso é interessante. O compositor Nuno Veloso convidou Cartola e sua esposa Dona Zica para visitarem o violonista Baden Powell na Barra da Tijuca. Não o encontraram. Na volta do passeio, Nuno comprou numa floricultura algumas mudas de rosas, prometidas à Dona Zica, que as plantou no seu quintal. Ela cuidava com esmero do seu jardim e certa manhã, acordou e ficou extasiada com a grande quantidade de rosas que tinham desabrochado. Chamou Cartola para apreciar a beleza da cena e perguntou qual teria sido o motivo de várias rosas, terem desabrochado ao mesmo tempo. A resposta foi: “não sei, as rosas não falam”. Ele gostou da frase que tinha acabado de dizer. Pegou o violão e começou a compor, letra e melodia. O resultado foi uma obra magistral, três dias antes dele completar 65 anos.
Cartola foi ao programa de auditório que Paulinho da Viola apresentava na TV Cultura e sentou-se junto à plateia. No meio da atração, interrompeu-a e pediu para mostrar sua música. Com a aprovação do diretor da emissora, cantou-a, conquistando imediatamente o público. A música foi oferecida a Roberto Carlos, que a recusou dizendo que “as rosas falavam”. Foi gravada por Beth Carvalho em seu álbum “Mundo melhor” (1976), antes do disco de Cartola. Esta obra poética, que expressa profundos sentimentos, é uma das dez músicas brasileiras mais gravadas.
Destaco outra música desse disco: “O mundo é um moinho”. A filha de Cartola, Creusa, saiu de casa aos 16 anos. E o sambista compôs uma música a título de aconselhá-la. Um clássico sobre a indiferença do mundo. Criaram uma história fantasiosa de que Cartola a encontrou se prostituindo. A lenda aborreceu a ambos por muito tempo.
Este disco consolidou Cartola como uma referência na música brasileira. A revista Rolling Stone classificou-o como o 8º colocado entre os 100 principais discos da música brasileira. Constitui-se num testemunho da qualidade artística e do legado de Cartola. Passados 50 anos, continua a influenciar novas gerações de sambistas e a deleitar os amantes do samba em sua forma mais autêntica e poética.
TOUFIC ANBAR NETO
Médico-cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras