Diário da Região
PAINEL DE IDEIAS

Capivaras

As capivaras não desafiam, mas nos observam; não se impõem ao território, mas ajustam-se a ele. Sabem que conviver não é dominar, mas pertencer

por Romildo Sant’anna
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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Em outonos de lua clara, com farolete e espingarda, meu pai ia com amigos à caça de capivaras. Cortava beiras de rios, lagoas, e voltava exausto de cruzar pirambeiras, brejos e atoleiros. Não me lembro do sabor da carne, só de que arrotávamos a tarde inteira. Da banha fazia-se o unguento que servia para aliviar reumatismo, artrite e dores em geral, inflamações de machucados e, esfregado no peito e nas costas, abrandava bronquites e catarros. Tal medicina popular e caseira concorria com o famoso Capivarol propagandeado em almanaques como “O Rei dos Tônicos”, poderoso energético, inclusive sexual, se tomado nas doses explicadas pelo farmacêutico.

As capivaras se estabeleceram nas cidades. Convivem com animais silvestres e urbanos, inclusive os humanos. Por razões diversas, isso acontece desde que o mundo é mundo. Mobilidades geográficas e adaptações biológicas dos seres vivos são estudados no fabuloso tratado de Charles Darwin. Ademais, esses lentos e silentes bichos se livraram de caçadores-coletores como meu pai e seus companheiros.

Hoje as capivaras tomam sol nos gramados como quem assina tratados de paz com o espaço e o tempo. De noite, em filas indianas, cruzam asfaltos imbuídas de que não adianta ter pressa. Na missão ecológica de desacelerarem, ignoram o piscar de luzes e buzinas. Hasteiam dignidade sem poses e posses, compromisso de protegerem os filhotes da manada e o socialismo espontâneo de partilharem as coisas sem ansiedades de vencerem ou de chegarem em primeiro.

Há uma aura pedagógica nessas criaturas. Dão lições de que a existência se erige em ligações, religiosamente. As capivaras não desafiam, mas nos observam; não se impõem ao território, mas ajustam-se a ele. Sabem que conviver não é dominar, mas pertencer. Os povos indígenas entendem que elas não são apenas matéria, mas também espírito, a vida em continuação. Tratam-nas por Kapiiuaras (em idioma tupi, aquelas que comem capim). Seu nome em feminino, relacionado às ervas, água limpa e à paz do silêncio, frequenta ensaios literários e antropológicos. A revista de letras e cultura da Academia rio-pretana o tomou em comodato para identificá-la, dado o que o bicho simboliza nas interseções rurais e citadinas da comunidade.

Uma alegoria escultórica, doada pelo artista plástico Fernando Fachini, alentou a margem da represa junto ao Complexo Swift. Lá convivem sossegadas capivaras de verdade. Inda que uns declarem, mexidos por ciúmes, que “ela deixa a dever como trabalho artístico”, obteve acalorado assentimento do povo. Ao organizarem filas para fotografias ao lado da estátua, famílias unidas exprimem sentimentos de otimismo e empatia à singela representação do animal e implícitos aplausos ao autor que a concebeu. Se tivesse jeito, traria também meu velho pai. Nessa paisagem, a última selfie do Dito Sant’Anna.

ROMILDO SANT’ANNA

Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Riopretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos