Bucólicas caipiragens
O filósofo latino Sêneca via no cumprimento dos deveres a redenção da humanidade. Isso se dá a partir da harmonia com a natureza e percepção de que somos parte dela

O antropólogo Mircea Eliade, no ‘Tratado de História das Religiões’, narra que, em contato com população primitiva da África, notou que os lavradores não usavam ferramentas agrícolas. “Acaso o senhor cravaria uma enxada nas carnes de sua mãe?” – alguém lhe perguntou. Tais pessoas não separam da vida palpável as artes e a sagrada natureza. Para elas, o solo são as carnes, as pedras são os ossos, e a vegetação os cabelos da Mãe-terra. Com tais e benditas unções, camponeses antigos e hodiernos se rodeiam de lendas e venerações. Componente da personalidade rural brasileira, essa dádiva se engrandece das solenes fusões etnoculturais que erigem a nação. No cotidiano se atualiza incessantemente o atemporal Mito Agrário da Terra-mãe.
São pegadas nas trilhos da vida. O filósofo latino Sêneca via no cumprimento dos deveres a redenção da humanidade. Isso se dá a partir da harmonia com a natureza e percepção de que somos parte dela (‘Sobre a Brevidade da Vida’, 49-55 d.C.). Assim, o trabalhador rural exalta memórias da terra-natal e, provido de doce nostalgia, compõe poemas-canções emotivos sublimando sonhos, o ninho encantado da existência. Acompanhemos a elegância sacramental numa valsa-rancheira do compositor Elpídio dos Santos: “Fiz uma casinha branca / lá no pé da serra / pra nóis dois morá, / fica perto da barranca / do rio Paraná. / O cenário é uma beleza / e eu tenho certeza, / você vai gostá, / fiz uma capela / bem do lado da janela / pra nóis dois rezá.” (Você Vai Gostar, 1955).
Quando a Europa era inda um esboço do hoje, o poeta Virgílio (70-19 a.C.) compôs as ‘Bucólicas’ (Éclogas), majestosa coleção de dez poemas sobre pastores, agricultores, as mágoas e amores idílicos. À sombra de uma árvore, um campônio celebrava a vida em igual razão e sentimento que cantadores atuais. Pois, enquanto houver um poeta a contemplar suas origens com alma branda, as ‘Bucólicas’ tornam a falar, não no antigo latim, mas em dialetos, sotaques e respiros de outros sertanejos. Haverá sempre um Virgílio a interpretar a identidade de seu povo: “Eu nasci naquela terra, / num ranchinho beira-chão, / tudo cheio de buraco, / adonde a lua faz clarão. / Quando chega a madrugada, / lá no arto a passarada / principia o baruião” (Tristezas do Jeca, 1918).
Em Nápoles, visitei enternecido a gruta onde se acha a tumba de Virgílio. Tão longe-perto! Poetizou alentos ligados às fases da lua, à memória das plantas, lavouras, o olhar dos bichos, os segredos ordeiros da alma. Doces flautas de um pastor, cordas em harpejos, pinturas em palavras! O rapsodo caipira Rolando Boldrin compôs o introito do ‘Som Brasil’ na televisão. Tão longe-perto do Tibre, navegando os tempos, nas dicções de um latino: “É que a viola fala alto no meu peito, mano. / E toda mágoa é um mistério fora deste plano” (Vide Vida Malvada, 1981).
ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos