Diário da Região
PAINEL DE IDEIAS

Brigitte Bardot e eu

Minha paixão secreta pela BB era compartilhada por milhões de pessoas, o que absolutamente não me incomodava. Eu tinha absoluta segurança de que o meu sincero amor era correspondido

por Durval de Noronha Goyos Jr.
Publicado há 11 horasAtualizado há 11 horas
Durval de Noronha Goyos Jr. (Durval de Noronha Goyos Jr.)
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Durval de Noronha Goyos Jr. (Durval de Noronha Goyos Jr.)
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Brigitte Bardot (28.09.1934 – 28.12.2025) foi uma célebre atriz francesa, defensora dos animais. Note-se que ela teve posições políticas controversas, mas me limito aqui à minha visão afetiva particular, com apenas 10 verões. Eu era então fascinado pela extraordinária beleza da jovem atriz, celebrizada um pouco antes, em 1957, pelo seu desempenho em ‘E Deus Criou a Mulher’, do cineasta Roger Vadin, seu marido. Minha paixão secreta pela BB era compartilhada por milhões de pessoas, o que absolutamente não me incomodava. Eu tinha absoluta segurança de que o meu sincero amor era correspondido.

Naquela época, a introdução pedagógica sexual dos(as) jovens tinha grandes limitações. As informações a respeito eram poucas e esparsas. Muito dependia do trabalho literário do escritor carioca, Alcides de Aguiar Caminha, quem tinha Carlos Zéfiro por pseudônimo. Ele produzia quadrinhos eróticos com desenhos de má-qualidade e textos banais, encadernados no formato do cordel, mas que capturavam a imaginação dos miúdos, em publicações clandestinas, à conta da condenável ação da censura. Os livretos eram conhecidos por “catecismos”, mas carecentes de conteúdo religioso. Como tantos coetâneos, fui leitor de Carlos Zéfiro.

Pois bem, numa ocasião, naqueles tempos, passava alguns dias em Onda Verde, na fazenda do Dr. Olavo Martins dos Santos, cuja esposa, Da. Terezinha, era amiga de minha mãe. Ali, nas amplas acomodações, estavam filhos e sobrinhos do casal. Dentre estes últimos, o jovem Casimiro Xavier de Mendonça Neto (1947-1992), alguns anos mais velho do que eu, quem gostava de desenhar moda feminina, com grande talento, brio e desenvoltura. No entanto, tal habilidade não era admirada nos meninos, pelo que ele era repreendido com energia. No futuro, o genial Casimiro deixaria as Arcadas para se tornar um dos principais críticos de arte do País, autor de diversos livros.

Um dia, numa tarde modorrenta, ele estava sentado junto à parede, no chão da sala de estar, a desenhar. Aproximei-me e espiei o seu trabalho. “Parabéns”, afirmei. “Você gosta?”, indagou-me. “Sim, minha mãe desenha modelos para suas clientes na oficina de costura”. “Já me disseram”. “Casimirinho, diga-me com sinceridade, por que você não desenha algo mais útil?” E ele me respondeu: “Você quer algo em particular?” “Sim, a Brigitte Bardot”. “E como?”. “Desnuda, com os seios à mostra, sentada na privada e com a porta do banheiro entreaberta”. “Ahahah. Vou fazer”. E não apenas cumpriu sua palavra, como a obra teria dado inveja a Amedeo Modigliani, graças à maestria do pintor e às exuberantes curvas de BB.

Com aquele tesouro em mãos, restou-me o problema de onde escondê-lo. Em minha pequena biblioteca, eu custodiava alguns livros de literatura infantil emprestados por minha querida amiga, Eloisa Braga. Sua mãe, a formidável e abnegada professora, Da. Eunice Braga, hoje com 97 anos, e a quem eu muito devo pelo apoio, a incentivava a fazê-lo, vendo em mim talvez um talento promissor. Escondi a BB num dos livros ilustrados dos Irmãos Grimm. Na devolução, o retrato foi junto, ou o meu pai desgraçadamente o descobriu. O capolavoro permanece sumido até hoje. Eis o trágico mistério da Brigitte Bardot desaparecida e o triste relato de como eu perdi o meu primeiro amor!

DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.

Escritor polígrafo. Ex-presidente da UBE. Da Academia de Letras de Portugal. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras