PAINEL DE IDEIAS

Benedito Passos Nogueira

Pelo apelido que lhe deram, já se pode calcular a mentalidade e o preconceito desde aqueles tempos, com quem pensava ou pense diferente da maioria

por Merli Diniz
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Nasci em Tanabi. Nossa casa na rua Barão do Rio Branco, mais conhecida como a rua do cinema ou do Cine Rio Branco, que resiste ao tempo e ainda lá está guardando nossas raízes e a arquitetura dos anos 60. Ficava no alto em relação à via pública e tinha um belo muro alto. Debruçada sobre ele, fazia meu registro visual dos transeuntes. Gostava de observar quem por ela passasse. Tinha uma curiosidade imensa para conhecer outras realidades. Sempre que podia, escapava das vistas de minha mãe para ir à casa do sargento Nelson, conversar com dona Ivani e ao anoitecer ia à residência do seu Pedrinho, que era pedreiro e lavava a louça do jantar para sua mulher. Achava demais já naquela época um homem dividir as tarefas do lar com sua esposa. Ou ainda, pegar pela mão minha irmã e ir visitar a Ana, moça bonita que morava atrás da igreja e que nos dava doce de mamão em calda. Era muito novinha, mas queria conhecer outros mundos, outras formas de pensamento, outras vivências. Não faço a menor ideia do que conversávamos, dada a imensa diferença de idade. Claro que eu especulava. Esses mundos que para mim pareciam incomuns à época, me instigavam.

Nessa minha rua morava seu Benedito Passos Nogueira, Mestre de obras, conhecido na cidade como Dito Comunista. Descia sempre ao pôr do sol tanabiense, camisa branca de mangas curtas, calça de linho marrom com pregas e seus inseparáveis óculos e chapéu, a Barão do Rio Branco, rumo a sua residência. E lá estava eu todas as tardes, debruçada sobre a charmosa barreira da nossa morada, para vê-lo passar. Já o admirava por sua conduta e sua coragem em pertencer ao partido comunista, clandestino à época. Sua preocupação e entendimento pelo bem comum, como já pregava Jesus Cristo, me encantavam desde criancinha. Pelo apelido que lhe deram, já se pode calcular a mentalidade e o preconceito desde aqueles tempos, com quem pensava ou pense diferente da maioria. Residia ele, uma quadra abaixo da nossa casa e era casado com dona Rosalina. Não tinha filhos. Lembro-me bem de uma bela samambaia pendurada no teto da varanda sob o sol da manhã a enfeitar o dia, onde eu ia me aventurar em novas descobertas. Dona Rosalina me atendia e conversava comigo. E esse universo “marginal”, diferente do padrão local vigente, me instigava. Com ele nunca falei, mas através de sua companheira o conheci um pouco.

Com o golpe de Estado de 64 teve evidentemente que ficar foragido, como se criminoso fosse. Assim como ele, lembro-me de outra família, nossos vizinhos que também viviam escondidos para não serem presos. Todos do PCdoB. Infelizmente, não houve mudança nesse olhar desinformado político e historicamente e ainda hoje designam pejorativamente as pessoas de comunistas para as qualificarem como se bandidos fossem. Contraditoriamente, defendem a ditadura imposta ao País por 21 anos, que torturou e matou centenas de compatriotas.

Neste mês de março em que se comemoram as passagens do término oficial da ditadura infligida ao Brasil e aniversário da fundação do PCdoB, homenageio Benedito Passos Nogueira, seu Dito Comunista, que já naqueles tempos lutava pelo direito dos trabalhadores, pela democracia e igualdade social.

MERLI DINIZ

Professora, advogada, poeta e cronista. Vice coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ªSubseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras