Bartleby e a cultura da omissão
Bartleby não enfrenta, não explica, não negocia. Apenas se retira da ação, enquanto continua presente. E talvez por isso ele pareça tão próximo

Entre os personagens mais estranhos da literatura moderna, poucos incomodam tanto quanto Bartleby, o escrivão criado por Herman Melville. Ele não grita, não ameaça, não discursa, não apresenta teoria sobre o mundo. Diante das tarefas que lhe são pedidas, limita-se a repetir a frase que se tornou célebre: “Prefiro não fazê-lo”. A resposta parece educada, quase tímida, mas há nela uma força corrosiva. Bartleby não enfrenta, não explica, não negocia. Apenas se retira da ação, enquanto continua presente. E talvez por isso ele pareça tão próximo.
Vivemos cercados de pessoas que não dizem exatamente “não”, mas também não fazem; não sabotam, mas atrasam; não discordam com coragem, mas desaparecem quando a decisão exige algum risco. Diante de uma injustiça, preferem não se envolver; de uma responsabilidade coletiva, preferem não assumir; de uma crise, não se comprometer. A neutralidade, nesses casos, deixa de ser equilíbrio e se transforma em abrigo.
A omissão ganhou aparência de prudência, e o omisso raramente se vê como cúmplice, porque imagina que apenas ficou de fora, como se a ausência de gesto o protegesse das consequências. Mas há momentos em que não agir também é agir. O silêncio pode funcionar como autorização para que o erro avance. Nem toda culpa nasce da ação direta; muitas vezes, ela se forma no espaço vazio deixado por quem poderia agir.
Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalização do mal, mostrou que grandes tragédias também dependem de pessoas comuns, capazes de renunciar ao julgamento e à responsabilidade. Bartleby não é um criminoso, nem deve ser reduzido a alegoria política. Ainda assim, sua figura ajuda a pensar essa deserção moral discreta, escondida sob nomes mais aceitáveis: cautela, discrição, cansaço.
Nas instituições, essa cultura aparece com nitidez. Todos percebem que algo vai mal, mas poucos se dispõem a nomear o problema. Todos sabem que certa prática é inadequada, mas quase ninguém quer contrariar interesses. Comenta-se nos corredores, nos cafés e nos grupos privados. No momento da ata, da reunião ou da decisão pública, porém, muitos se tornam Bartlebys silenciosos. Preferem não fazê-lo, porque fazer implicaria desgaste e exposição.
O problema é que a vida coletiva não se sustenta apenas pela ausência de maldade explícita. Ela exige presença, participação e coragem. Uma comunidade formada por pessoas educadas, discretas e omissas pode parecer civilizada, mas será frágil quando precisar defender princípios. O excesso de prudência, quando vira cálculo de conveniência, deixa de ser virtude e passa a ser covardia administrada.
Bartleby nos incomoda porque revela uma verdade desconfortável: há muitas maneiras de abandonar o mundo sem sair dele. Pode-se abandonar uma instituição continuando a frequentá-la, uma causa continuando a elogiá-la, uma amizade continuando a cumprimentar, a cidadania continuando a reclamar do país. A retirada nem sempre é física; às vezes começa quando alguém deixa de responder eticamente ao que a realidade lhe pede.
Talvez as sociedades não entrem em crise apenas porque lhes faltem heróis ou porque lhes sobrem vilões. Muitas vezes, elas se degradam porque existe uma multidão razoável, instruída e cordial que, diante do que deveria ser feito, apenas prefere não fazê-lo.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados.