Autoestima e o bem comum

Depois de observar as múltiplas formas de grandeza e miséria humanas, continuo intrigada com a aparente contradição entre inteligência e moralidade. Ainda me custa compreender por que algumas pessoas desejam liberdade, respeito e oportunidades para si, enquanto trabalham para restringir esses mesmos direitos aos outros. Há algo de profundamente perturbador na capacidade humana de transformar privilégios em virtudes e a exclusão em projeto de sociedade.
As explicações biológicas, psicológicas e sociais ajudam a compreender esse fenômeno, mas não o esgotam. A capacidade de refletir, criticamente, sobre os próprios condicionamentos talvez seja uma das maiores expressões da inteligência humana. Sem o exercício do autoconhecimento, crenças herdadas passam a ser reproduzidas como verdades absolutas e interesses particulares assumem o lugar do compromisso ético com o bem comum.
Não existe autoestima em sistemas de crença individualistas. Se uma pessoa ou um grupo transmite valores predatórios, não há paz possível. Não se formam cidadãos de bem sem uma sólida formação voltada ao autoconhecimento. Quem não sabe quem é vive em função de competições inócuas. Precisa ter para parecer ser. As comparações constituem um erro recorrente, no desenvolvimento da personalidade e na evolução da espécie como sujeito social.
Só pode amar a si quem trabalha pelo bem comum. Um indivíduo só pode reconhecer aquilo que lhe é conhecido. Autoestima é a competência para reconhecer-se bom, sem depender da aprovação externa. O valor de cada um se mede pelos resultados de suas ações e por sua capacidade de produzir impacto positivo na família e na comunidade, nunca pela superioridade sobre os outros.
Podemos considerar uma ótima autoestima a segurança pessoal que não se abala quando erra, tentando fazer o justo, porque sabe que errar faz parte do jogo, reconhece o erro, aprende com ele e não volta a repeti-lo. É a de quem se veste para si, ainda que cause estranheza aos juízes da moda; tem coragem de pensar e divergir do bando, ainda que isso lhe renda mais solidão do que aplausos; conhece tão bem a si que as diferenças mais o encantam do que incomodam.
Amar a si é consequência de servir. A arrogância é sintoma de baixa autoestima. Quanto maior a insegurança, maior a necessidade de autoafirmação. A prepotência e a ganância são manifestações de medo. Quem não consegue se firmar como ser confunde-se com o ter. Na ausência de ações que revelem o ser, a posse assume o domínio do discurso. Exibe-se muito e entrega-se pouco.
Amor não se confunde com conformidade. Tampouco compreender o outro significa tolerar erros sistemáticos. A indignação diante do mal deve prevalecer na construção do bom caráter. Sejamos razoáveis. Cada um é o que é em razão de sua história de vida, de suas experiências, oportunidades, privações e condicionamentos. Não podemos esperar ou exigir uniformidade de pensamentos e condutas. Desistir do esforço inútil de tentar moldar o outro segundo nosso próprio sistema de crenças parece uma decisão sensata.
Sejamos razoáveis, por piores que sejam as ações de uma pessoa, elas representam o melhor que ela consegue realizar naquele momento. Isso não significa que esteja condenada a permanecer imutável. Ao entorno compete a responsabilidade ética e moral de denunciar abusos, impedir a violência, apontar caminhos alternativos e disponibilizar ajuda no processo de mudança.
Enquanto os que se odeiam se sentirem à vontade para expressar ódio, oprimir e explorar vulneráveis em troca de vantagens pessoais, aqueles capazes de sentir empatia precisarão reunir esforços para combater toda forma de violência nas famílias e na sociedade.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.