Artes irmãs: poesia e pintura no classicismo chinês

Há séculos é reconhecido o vínculo estreito entre a poesia e a pintura clássicas chinesas, as quais mereceram o epíteto de “artes irmãs”, por trazerem, concomitantemente, idêntica fundação inspiracional: o belo, e aquela formal: o pincel, a tinta e a seda, ou o papel, depois de sua invenção por volta do ano 100 d.C. A poesia contém a pintura, como esta abraça aquela, num conúbio harmonioso. Anteriormente à dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.), a formação dos intelectuais, candidatos aos quadros administrativos do Império, era feita tutorialmente, nas residências. Na dinastia Han foram formadas as escolas. O pincel fazia as vezes do lápis, devido à natureza dos caracteres pictóricos ou logográficos da língua chinesa, cada um representando uma ideia, morfema ou palavra, não um som. O imperador Jen Xong (1010 -1063) escreveu os seguintes versos, em minha tradução:
“O menino que deseja crescer
estuda os clássicos
e ... lê... e... lê... e lê...”
O pincel tornou-se, concomitantemente, o instrumento das artes e o símbolo do intelectual chinês, quem deveria atingir as 3 perfeições: na poesia, caligrafia e pintura. Os pincéis, feitos com pelos de animais, servem tanto para pintura, quanto à caligrafia, considerada arte autônoma. As técnicas, no entanto, são compartilhadas. Aqueles de minha coleção, adquiridos durante minhas 4 décadas de contato com a China, têm quase todos pegas de pedras. Na tradição da pintura clássica chinesa o artista, após concluir a imagem pictórica da natureza, insere um poema no espaço vazio, com caligrafia impecável, considerado como o espírito, a energia e a essência da representação.
Pois bem, o escritor e poeta chinês, Qiu Xiaolong, meu coetâneo, é um amante do classicismo chinês, mas se notabilizou como um autor de prosa, dedicado ao gênero policial. O seu herói é o detetive Chen Cao, quem tem um histórico literário assemelhado ao próprio e é membro da União de Escritores Chineses, a qual assinou acordo de colaboração com a UBE, durante minha presidência desta entidade. Qiu Xiaolong escreveu 12 livros da série de Chen Cao em inglês e reside nos EUA. O detetive faz incursões literárias frequentes no curso do desenvolvimento de suas aventuras no deslinde dos crimes de diversas naturezas, frequentemente relacionados com corrupção.
Muitos dos reparos institucionais de Qiu ao regime da República Popular da China são insubsistentes ou exagerados, possivelmente para maior efeito literário, e devem ser desconsiderados. No entanto, são preciosas suas referências, narrativas ou menções ao dia a dia, valores culturais e morais da população chinesa, envolvendo a sua esplêndida gastronomia, as relações familiares, a literatura, os escritores, a história, os aforismas, a filosofia, bem como as ricas tradições milenares e as formidáveis conquistas nacionais.
Os seus livros proporcionam uma instigante viagem cultural pela China, a ser empreendida com espírito criterioso. Através de Chen Cao, Qiu Xiaolong informa: “a crítica literária chinesa unanimemente expressa um parecer a respeito da importância da poesia na pintura e da pintura na poesia”. Ademais, a sua visão de que “apenas um poeta pode traduzir poemas” coincide com a minha. Dentre nós, no Brasil, o grande bardo surrealista e do movimento beat, Cláudio Willer, meu caro amigo de saudosa memória, fazia reiteradamente a mesma assertiva.
DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Jurista e escritor polígrafo. Ex-presidente da UBE. Da Academia de Letras de Portugal. Autor do Dicionário de Mandarim Pinyin. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras.