Antonico

O catolicismo popular brasileiro, diferente do europeu, é santoral, feito da presença quase palpável dos santos, anjos e espíritos, de acordo com sentimentos e cosmogonia da nação

por Romildo Sant’anna
Publicado há 5 horasAtualizado há 1 hora
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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A estimada Marly comentou que seu amigo norte-americano enxerga Antonico, no delicado samba de Ismael Silva, como alusão a Santo Antônio, o padroeiro de Lisboa. Foi mestre em teologia na Universidade de Pádua e – acrescento – comungaria vez em quando o cafezinho e pão de queijo com beatas e devotos da Cidadezinha Qualquer, na poesia de Drummond. Por que não, no mosaico de mundos, tempos e costumes que é o Brasil? Nos versos da canção alguém suplica pela intercessão do santo: “Oh, Antonico, vou lhe pedir um favor, / que só depende da sua boa vontade, / é necessário uma viração pro Nestor, / que está vivendo em grande dificuldade”.

Enfermeiro das causas urgentes e aflições do povo, oh Antonico! Inda que fale de um caso específico, esse samba pode ser sentido como alegoria da realidade coletiva: os necessitados buscam o sobre-humano como última defesa. Entender Antonico como Santo Antônio (talvez não seja, mas poderia ser), é avistar a ponte que religa pessoas, a prece na soleira de uma porta, cultos nos terreiros e altares de capelas seculares, médiuns, padres, benzedeiras e cambonos. No samba sussurrado, lento e compungido do artista fluminense, o eu-poético explica que, por mágoa ou inveja de um sambista, “até muamba já fizeram pro rapaz / porque no samba ninguém faz o que ele faz”.

O catolicismo popular brasileiro, diferente do europeu, é santoral, feito da presença quase palpável dos santos, anjos e espíritos, de acordo com sentimentos e cosmogonia da nação. Em ‘O Que Faz o brasil, Brasil?’ (Rocco, 1986), o antropólogo Roberto DaMatta medita: “Temos intimidade com certos santos, orixás e entidades do além. Em nossas formas de religiosidade há uma relação entre este e o outro mundo. Define a espiritualidade e nosso jeito de chegarmos a Deus”. Mais do que em modos racionais, somos rodeados de ritos e mitos sagrados. Eles consolam nossa vida.

Entre a solenidade dos templos, orações e simpatias há um cordel misterioso em que as esperanças se ajuntam. No meio delas, por milagre, sobressai um Santo, quiçá o Antonico de um samba peditório, da entidade quase-humana das festas juninas, religiosas e profanas, do inspirador celestial dos amores. Rejuvenesce nele a crença propiciatória da fartura e casamentos felizes, e o bom ânimo de nos conceder proteção contra os rancores, para que as ruindades não se alastrem.

Na poesia de Vadico e Noel Rosa já se cantava “uma triste melodia, que é meu samba em feitio de oração”. No ‘Samba da Bênção’, de Baden Power e Vinícius de Moraes, o trovador afirma que, “numa tristeza que balança, o bom samba é uma forma de oração”. À mesa de bar, Marly Terra Verdi recitou-me os dois últimos versos da linda canção: “Mas hei de vê-lo muito bem, se Deus quiser, / e agradeço pelo que você fizer”. Nesse rogar a Antonico, a brasileira esperança coberta de fé.

ROMILDO SANT’ANNA

Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos