Amor e despedida
Marley não foi mascote: foi biografia compartilhada. Recebeu amor — e devolveu em abundância. Agora ele não está mais fisicamente aqui. Mas o amor que circulou entre nós permanece

Na última segunda-feira, levei Marley, meu labrador, para a eutanásia. Ao escrever isso, ainda me sinto em uma distopia literária qualquer. E ainda dói — bastante. Aos 16 anos, ele já não tinha autonomia. O corpo que um dia foi corrida e entusiasmo tornara-se lento, dependente, frágil. Vínhamos acompanhando sua saúde com medicação e atenção à qualidade de vida. O que diminuía não era apenas a força, mas o ímpeto de estar no mundo. Assim, abreviar o sofrimento do meu grande companheiro foi, para mim, um ato de amor.
Marley chegou até nós já adulto, resgatado da rua pelas mãos de Débora, minha ex-mulher. Em sua chegada, identificamos pontos inflamados de uma castração recente e, logo na primeira consulta veterinária, os exames confirmaram a doença do carrapato. Exigiu tratamento, paciência, presença. Recuperou-se. Meses depois, surgiu um tumor. Vieram cirurgia, quimioterapia, idas e vindas ao veterinário — mais cuidado, mais amor. Recuperou-se novamente. Viveu anos bons, inteiros, dignos.
Ter um labrador era um sonho de infância que eu guardava silenciosamente. Ele entrou em casa como realização desse desejo antigo e logo se tornou presença constante nas fases decisivas da minha vida.
Esteve ao meu lado durante o desenvolvimento da minha tese de doutorado. Enquanto eu mergulhava em teorias e longas horas de escrita, ele permanecia próximo, como quem guarda o autor sem se preocupar com o texto. Também esteve comigo na separação, ocupando o espaço com sua simples necessidade de proximidade quando a casa parecia grande demais.
Ao longo dos anos e dos contextos diversos pelos quais passamos juntos, Marley também aprendeu a habitar os pequenos rituais da casa. Reconhecia a hora do café, os raros momentos em que iríamos para a rua em nossas caminhadas, o silêncio das noites em que eu ainda escrevia. Deitava-se próximo, às vezes apenas observando, como se vigiasse o mundo para que nada perturbasse aquele território de convivência. Há presenças que não precisam fazer muito para se tornarem indispensáveis.
Após quatro meses fora, em temporada de estudos nos Estados Unidos, voltei para casa. Marley me olhou por instantes sem reconhecer quem chegava. E então a memória encontrou seu lugar. Chorou, aproximou-se como pôde, pediu carinho com urgência. Por quase meia hora, buscou contato, como quem precisava recompor o tempo da ausência. Ali compreendi que o amor mede a distância de muitas formas: menos em quilômetros, mais em intensidade.
Nos últimos meses, além da fragilidade natural da idade e da senilidade, o câncer retornou. Não houve abandono nem negligência. Houve acompanhamento, escuta e ponderação.
A decisão pela eutanásia não foi precipitada. Foi amadurecida. Amar é, algumas vezes, reconhecer que a vida tem seu curso e que toda existência encerra sua travessia. Nesses momentos, dignidade também pode significar descanso. Não se tratou de abreviar a vida, mas de não prolongar um processo irreversível.
Marley não foi mascote: foi biografia compartilhada. Recebeu amor — e devolveu em abundância.
Agora ele não está mais fisicamente aqui. Mas o amor que circulou entre nós permanece.
Alguns amores nos ensinam a permanecer. Outros nos ensinam a deixar descansar.
Marley me ensinou ambos. E isso basta.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados