PAINEL DE IDEIAS

Amargurado

Em solidão e contrariando métodos da supremacia senhorial e autoritária que legitimaram ancestrais poderes da masculinidade, o personagem renuncia à própria felicidade pela felicidade da mulher que o abandonou

por Romildo Sant’anna
Publicado há 11 horas
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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O título da famosa guarânia ‘Amargurado’ (1972), de Tião Carreiro e Dino Franco, desvenda estados sentimentais, resignada tristeza. Na forma de monólogo interior, o eu-lírico alude ao amor perdido: “O que é feito daqueles beijos que eu te dei?... // Talvez com outro estejas vivendo bem mais feliz... // Vai com Deus, sejas feliz com o teu amado... // Eu só desejo que a boa sorte siga teus passos / mas se tiveres algum fracasso / creias que ainda te posso ajudar”. Em solidão e contrariando métodos da supremacia senhorial e autoritária que legitimaram ancestrais poderes da masculinidade, o personagem renuncia à própria felicidade pela felicidade da mulher que o abandonou.

O machismo se dissipa e “feminiza-se”. Os signos da canção evidenciam a distância entre o mandonismo impositivo e varonil, e um renovado ser espiritual, polido, sonhador. Contagiando os ouvintes, mensagens assim proferidas inspiram descobertas interiores, ressignificações de conceitos, revisões dos códigos de condutas. E, sustentados na teia imaginária da poesia, os ouvintes cantam solenemente a letra-melodia e a têm como uma espécie de hino a enunciar o que talvez almejassem alcançar, mas são reprimidos pelos usos e costumes. Nas audições comunitárias, os seres masculinos (e femininos) tornam-se sujeitos a entoarem em coro mensagens gregárias, coesivas, em voz alta, baixa ou mentalmente.

No clima de ‘Amargurado’, antecipando-se à geração migrante dos Sertanejos Urbanos, enlaçam-se canções de arrebatadores efeitos socioculturais e midiáticos, nos anos de 1980 e seguintes, como ‘Fio de Cabelo’, ‘Se Deus me Ouvisse’ e ‘Nuvem de Lágrimas’ (Chitãozinho e Xororó), ‘Ainda Ontem Chorei de Saudade’, ‘Se Eu Não Puder Te Esquecer’ e ‘Seu Amor Ainda é Tudo’ (João Mineiro e Marciano), ‘Na Hora do Adeus’ e “Pedaço de Minha Vida’ (Matogrosso e Mathias), ‘O Grande Amor da Minha Vida’ (Gian e Giovani), ‘É o Amor’ (Zezé di Camargo e Luciano) e ‘Não Aprendi Dizer Adeus’ (Leandro e Leonardo). Nos tempos presentes são transmitidas e entoadas em coro nos afáveis encontros de amigos e em grandiosos concertos ao vivo.

Na linha do estudioso alemão E. R. Curtius (Literatura Europeia e Idade Média, 1948), esse poema-canção presentifica enredos frequentes no lirismo medieval peninsular: a entrega sem recompensa, o contentamento descontente, tormento da solidão, a amada inatingível, em suma, mobiliza enredos assíduos nas Cantigas de Amor da poesia trovadoresca e a emotividade romântica sobrepassando a cultura. Em vozes dolentes nos acordes dessa guarânia, a rusticidade masculina transforma-se em polidez e cortesias. Traduzem situações emocionais sem brigas e rasgações de retratos. Tudo afinado com as constatações de que “são demais os perigos desta vida”, em palavras de tal modo delicadas, como num poema-canção de Vinícius de Moraes.

ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos