Alucinação
O disco é uma fotografia irretocável de um passado que refletia angústias. Trazia uma visão desencantada da vida

Completa 50 anos em 2026 o álbum de estúdio “Alucinação”, o segundo do cantor e compositor Antônio Carlos Belchior. O disco mistura rock, blues, country e ritmos nordestinos. É a obra mais relevante de sua carreira. Compôs sozinho as dez músicas. Elas traduziam a ótica reflexiva de um migrante nordestino que buscava um lugar ao sol no eixo Rio-São Paulo, pois era um artista “sem parentes importantes e vindo do interior”. Duas das músicas, “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida”, já tinham sido gravadas por Elis Regina no LP “Falso Brilhante” (1976) e fizeram muito sucesso. Nesta época Belchior já tinha se desgarrado do “Pessoal do Ceará”: Fagner, Ednardo (o da música “Pavão Mysterioso”) e Amelinha.
O disco é uma fotografia irretocável de um passado que refletia angústias. Trazia uma visão desencantada da vida. As letras das canções trazem ideias contundentes como “A vida é realmente diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”. Segue com “O passado é uma roupa que não nos serve mais”. São alusões à juventude acomodada. Na música “Fotografia 3x4”, com a frase “Veloso, o sol não é tão bonito para quem vem do Norte e vai morar na rua”, ironiza a canção “Alegria, Alegria” (1967) de Caetano Veloso.
Nesse álbum constam os maiores sucessos de Belchior: “Como nossos pais”, “Velha roupa colorida”, “Alucinação”, “A palo seco”, “Sujeito de sorte” e o maior hit de sua carreira, “Apenas um rapaz latino-americano”. Suas músicas foram regravadas tanto por artistas da mesma geração como Elis Regina, Erasmo Carlos, Vanusa, Fagner e Amelinha, quanto por artistas mais jovens como Adriana Calcanhoto, Emicida, Ana Cañas e Humberto Gessinger.
O disco impressiona por suas extensas letras narrativas, ao estilo de Bob Dylan. A base sonora é uma mescla de diferentes estilos, com grande performance dos músicos envolvidos. Batizou o álbum de “Alucinação” porque acreditava que viver era mais importante do que pensar sobre a vida. Dizia que viver era uma forma de delírio absoluto. Vendeu 30 mil cópias em apenas um mês e no total, mais de 500 mil, consagrando-o como um ídolo de massas.
O disco continha canções que exprimiam a urgência do jovem brasileiro entre a violência do Estado e o fim dos sonhos de liberdade. Belchior relatava suas angústias frente à cidade grande e o ocaso do sonho hippie, com ironia e um pouco de amargura. O sonho acabara há seis anos, com seu fim decretado oficialmente em 1970 por John Lennon, o Beatle que norteara parte da ideologia de Belchior. O ex-seminarista e ex-estudante de medicina Belchior era revolucionário, à frente do seu tempo. O disco resume o sentimento de toda uma geração brasileira, interiorana no meio da cidade grande. Esta é a marca de um clássico: sua atemporalidade que atravessa gerações.
TOUFIC ANBAR NETO
Médico-cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras