PAINEL DE IDEIAS

Ainda ao amistoso rapaz

Muitos dependentes associam o uso de drogas a traumas e perdas familiares, violências sofridas e crimes cometidos, condensando grande parte desse sofrimento nesse sentimento

por Redação
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Evandro Pelarin (Divulgação)
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Evandro Pelarin (Divulgação)
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Tenho um raciocínio lento. Preciso de tempo para pensar antes de falar, o que, às vezes, me leva a lamentar respostas tardias. Por outro lado, essa demora evita impropriedades ditas de forma apressada e mal pensada. Este texto retoma o da quinzena anterior, em que relatei um diálogo com um ex-adicto temeroso de uma recaída. Após refletir, expus no artigo o que gostaria de lhe ter dito naquela ocasião: que precisamos exercitar a imaginação e a fé, pois o sonho amplia a vida, ressignifica o cotidiano e nos afasta da melancolia.

Também gostaria de ter abordado a culpa. Muitos dependentes associam o uso de drogas a traumas e perdas familiares, violências sofridas e crimes cometidos, condensando grande parte desse sofrimento nesse sentimento. O consumo abusivo passa a funcionar como fuga de uma realidade que lhes parece insuportável e, ao mesmo tempo, como forma de autopunição. Com o tempo, especialmente quando chegam à situação de rua, muitos passam a acreditar que não há saída, como se estivessem definitivamente presos à própria degradação e ao risco de morte, em razão de uma culpa que carregam e julgam insuperável.

Eu gostaria de ter argumentado, com alguma eloquência, que os fatos do passado não constituem uma condenação irreversível, por mais cruéis e dolorosos que tenham sido. Aprendi muito disso na prática do voluntariado, convivendo com colaboradores de casas de acolhimento, com pessoas que superaram o vício e hoje participam de operações de resgate, com doadores abnegados que diariamente levam alimentos e medicamentos aos famintos e doentes, e com religiosos e não religiosos que se dedicam a esse trabalho silencioso, celebrando com alegria cada vida recuperada e retirada das ruas. Esses encontros mostram, de modo concreto, que a queda humana pode ser profunda, mas a possibilidade de recomeço existe e é real.

Se me ocorresse naquela mesma conversa, eu poderia ter lembrado uma figura espiritual da tradição russa, presente em “Os Irmãos Karamázov”, o stárietz Zóssima, que se dirige a uma viúva profundamente angustiada, tomada por culpa, sofrimento e desespero. Naquele momento, eu poderia ter compartilhado com o rapaz o sentido de suas palavras.

Zóssima a exortava a não temer, a não ceder à melancolia. Dizia-lhe que, enquanto o arrependimento permanecesse vivo em sua alma, Deus tudo perdoaria, pois não existe pecado que supere o amor divino. Nenhum ser humano pode cometer falta tão grande que esgote esse amor infinito. Ele recomendava que ela se ocupasse do arrependimento e afastasse o medo. Pedia que acreditasse no amor de Deus, um amor que alcança até mesmo o pecador em seu pecado. Lembrava que há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por muitos justos.

Exortava-a ainda a não cultivar amargura nem revolta, a perdoar, no íntimo, todas as ofensas e a reconciliar-se verdadeiramente. Ensinava que o arrependimento é sinal de amor; e que amar é já pertencer a Deus. Tudo pode ser resgatado e salvo pelo amor. Acrescentava que, se até ele, também pecador, fora capaz de compadecer-se com o sofrimento dela, quanto mais Deus o seria. E concluía afirmando que o amor é um tesouro tão precioso que com ele se pode redimir não apenas os próprios pecados, mas também os dos outros; razão pela qual se deve seguir adiante sem medo.

Talvez essas palavras não resolvessem, de imediato, o receio daquele rapaz. Mas poderiam, quem sabe, abrir uma pequena fresta; suficiente para lembrar que, mesmo nas situações mais sombrias, ainda há caminhos de retorno.

EVANDRO PELARIN

Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras