A Vida é Sonho
“Sonhe e se liberte.” É o que eu gostaria de ter dito àquele rapaz, se naquele momento me ocorresse o que agora escrevo neste espaço

Em um evento público, um rapaz simpático aproximou-se de mim: “Doutor, conversei com o senhor naquela cracolândia sob o viaduto João Mesquita! Lembra-se? Agora estou bem, com minha família, longe do crack. Mas não é fácil. Errei demais e tenho muito medo de uma recaída.” Chamou-me a atenção a ênfase que ele deu à compulsão pela droga, uma fala corriqueira entre ex-adictos, que costumam descrevê-la como o grande motor da drogadição, do desprezo pela própria integridade física e psíquica. Todavia, pergunto-me se essa explicação é suficiente para compreender a dependência química ou se não seria necessário abordá-la por outro ângulo.
À primeira vista, de fato, o apego excessivo a uma conduta, a um objeto, a uma ideia ou a qualquer coisa parece algo deletério ao ser humano. Dostoiévski recorre frequentemente a personagens obsessivos para caracterizar figuras atormentadas ou perigosas, como o homicida Raskólnikov de “Crime e Castigo”, em que o médico Zósimov adverte sobre o risco das ideias fixas: “Esses monomaníacos tomam um mosquito por um elefante e veem, em devaneios, as coisas mais fantásticas”. Algo semelhante ocorre com o Homem do Subsolo e com Dmitri Karamázov.
No entanto, é difícil afirmar que as obsessões são sempre negativas. Caso contrário, como explicar obras magníficas como “A Noite Estrelada”, de Van Gogh? Ou a humanidade radical de Nelson Rodrigues, nossa “flor de obsessão”, que confessava não conseguir viver sem suas repetições excessivas? Seja no cotidiano, seja na arte, os obsessivos estão por toda parte e não, necessariamente, são contraproducentes.
A desesperança, a melancolia crônica, a depressão, a ausência de perspectivas e de projetos de vida e a intensa e persistente vivência de um presente sem horizonte parecem revelar um vínculo mais profundo e comum entre os dependentes químicos. Talvez esteja aí, na carência de sonhos, uma chave importante para compreender com maior amplitude a toxicodependência, sobretudo no caso de drogas pesadas como o crack.
Viver sem utopias, sem fantasias ou sem fé pode tornar-se perigoso numa época em que abundam substâncias alucinógenas de todo tipo, encontradas em qualquer esquina, capazes de abrir as “portas da percepção”, como escreveu Huxley. É como se o indivíduo rompesse conscientemente com suas próprias ilusões, aquelas que poderiam ser cultivadas livremente em sua imaginação, e passasse a buscá-las artificialmente por meio das drogas. “O mal começa com a consciência demasiado aguda, pois o excesso de lucidez mata as ilusões indispensáveis à subsistência da vida”, escreve o professor Rogério F. dos Santos ao comentar o niilista Brás Cubas.
“A vida é sonho.” Assim intitulou Calderón de la Barca sua célebre peça, inspirada no espírito de Dom Quixote, que imaginou Dulcineia del Toboso, a senhora de seus amores, e saiu à sua procura com fervor. No caminho, repleto de aventuras e desventuras, revelou-nos que sonhar amplia nossos horizontes, conduzindo-nos à liberdade e ao enobrecimento da alma.
“Sonhe e se liberte.” É o que eu gostaria de ter dito àquele rapaz, se naquele momento me ocorresse o que agora escrevo neste espaço. Se tivesse tido tempo, quem sabe lhe mostrasse este verso do próprio Calderón, colocado na boca do príncipe Segismundo, narcotizado a mando do pai e aprisionado numa torre após conhecer a beleza da liberdade: “Que é a vida? Um frenesi. Que é a vida? Uma ilusão, uma sombra, uma ficção; e o maior bem é pequeno: pois toda a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são.”
Vivemos em um mundo tão singular que viver é sonhar; e a própria vida nos revela, ao final, que todo homem que vive sonha.
EVANDRO PELARIN
Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras