Diário da Região
PAINEL DE IDEIAS

A preguiça travestida de eficiência

A utilização de IAs como ferramentas de aumento da produtividade é inquestionável; porém, torna-se abjeta quando transformada em oráculo

por Mara Lúcia Madureira
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Mara Lúcia Madureira (Mara Lúcia Madureira)
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A evolução humana é feita de percepções, ferramentas e deslocamento. Desde a pré-história, nossos ancestrais migraram em busca de alimentos, recursos naturais e melhores condições de vida. Partiram da África para a Ásia e, mais tarde, chegaram à Europa, Oceania e Américas. A África é a origem, o berço do Homo sapiens que, diante de mudanças climáticas ameaçadoras, debandou pelo planeta.

As migrações foram impulsionadas pelo instinto de sobrevivência e as ferramentas, uma resposta às necessidades básicas e imediatas - caçar, cortar a carne, quebrar ossos, raspar o couro e se defender. O ser humano é um bicho apreciador de eficiência com baixo gasto de energia.

Habitar novas paisagens, criar instrumentos e desenvolver habilidades nos permitiram pensar num destino mais moldável do que imposto. O fogo amenizou o frio, afastou predadores e originou a culinária. As lanças controlam a distância e os recipientes possibilitam o armazenamento de alimentos. A redução da imprevisibilidade sempre foi reconfortante, e a sensação de controle, um prazer.

A inconformidade humana não aceita limites e a vaidade tem sede de prestígio e poder. Quem domina técnicas constrói soluções, exerce influência, atrai alianças e valorização social. A expansão das capacidades sempre teve um componente de status. A pedra afiada poupou os dentes, a lança ampliou o alcance do braço, o arco multiplicou a força e a agulha inaugurou o vestuário.

As habilidades humanas tornaram a existência mais segura e longeva, além de promover a cooperação. Desenvolver ferramentas envolve ensino, linguagem, memória coletiva e tudo isso fortaleceu a cultura e organização social. Antes da confecção do objeto, existiu a representação mental e o planejamento, um treino para a mente estratégica expandir possibilidades. Assim chegamos à escrita, aos livros, computadores, à internet e inteligência artificial.

Ninguém, em sã consciência, ousa negar a utilidade das invenções e inovações tecnológicas. Até aqui, tudo fora criado a partir da percepção das necessidades e do pensamento criativo. De agora em diante, inicia-se a fase de terceirização da consciência, do desaprender a pensar. Tornamo-nos dependentes cognitivos, incapazes de decidirmos sozinhos e viciados em orientação. O desejo já não nasce mais de dentro, agora, o julgamento começa a agonizar e o algoritmo, a pensar por nós.

A utilização de IAs como ferramentas de aumento da produtividade é inquestionável; porém, torna-se abjeta quando transformada em oráculo - o retorno moderno da submissão ao invisível, ao custo da perda de autoria e da autonomia criativa. Gostamos de surripiar respostas prontas, elaboradas com primor por autores anônimos, cujos créditos foram sequestrados pelos senhores das tecnologias. O mais curioso é a facilidade com que nos convencemos de estarmos criando algo a partir da formulação de perguntas, ainda que bem elaboradas, para um gerador automático.

A preguiça racionalizada no discurso da eficiência cumpre a função de evitar o conflito e a insegurança que precedem o pensamento. Deixamos de compreender e passamos a (re)produzir moldes fluentes de estruturas prontas com aparência de resultado. A atrofia cognitiva nos tornou dependentes de conveniência e usuários de próteses mentais.

A evolução requer movimento, ferramentas e tecnologias, mas, sobretudo a preservação do pensamento e o respeito à origem, ao direito migratório e ao intercâmbio de povos e ideias.

MARA LÚCIA MADUREIRA

Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras