A Hospitalidade
Continuamos a acreditar que vale a pena ajudar a voltar para casa quem assim desejar, sempre com os cuidados que cada caso exige, e acolher com respeito e dignidade quem fica

Quase metade das pessoas em situação de rua daqui vem de outros municípios. Umas apenas passariam por Rio Preto, importante entroncamento rodoviário, e acabam ficando. Outras chegam movidas pela esperança de uma vida nova. Muitas, contudo, terminam capturadas pelas drogas. Há quem pregue a expulsão sumária dessas pessoas, pelos transtornos que algumas causam no espaço público. Essa aversão, que não é de todos, somada ao sucesso do filme de Nolan, levou-me a revisitar a Odisseia, que é também uma reflexão sobre as formas de receber o estrangeiro. Passei a me perguntar de quem mais nos aproximamos entre os povos e divindades que Ulisses e seus marinheiros encontraram no tormentoso regresso de Troia.
Os lotófagos são cordiais, mas dão aos viajantes a flor de lótus, que lhes retira a vontade de prosseguir; talvez o crack dos nossos dias, que priva tanta gente do governo sobre a própria vida. Os ciclopes e os lestrigões devoram alguns dos companheiros de Ulisses: negam a xenía, antiga lei grega da hospitalidade. Da mesma raiz, xénos, vem a xenofobia; da mesma palavra, dois sentidos opostos, que dependem do anfitrião. Éolo acolhe bem uma única vez: recebe os marujos com fartura e os expulsa quando retornam em pior estado. Circe julga quem chega: transforma alguns deles em porcos e depois lhes restitui a forma humana. A deusa Calipso é uma excelente anfitriã, mas nega a liberdade de partir.
Perdidos os navios e os companheiros, Ulisses conserva a obstinação de regressar à família e recusa a imortalidade oferecida por Calipso. Mal deixa a ilha dela numa jangada, Posêidon, deus do mar e pai do ciclope que ele cegara para escapar, desencadeia contra ele todos os ventos. O mastro se rompe, a embarcação se desfaz. As vestes que lhe restavam, encharcadas, arrastam-no para o fundo, obrigando-o a abandoná-las. Surge então Leucoteia, divindade marinha, e lhe empresta o próprio véu, que não o livra do naufrágio, mas, atado ao peito, resguarda o coração onde permanece vivo o anseio de voltar para casa.
Nu e quase morto, Ulisses alcança a terra dos feácios, última parada antes de Ítaca, a sua ilha. Chega apenas com aquilo que o véu protegia. Banham-no, vestem-no, alimentam-no e o fazem sentar-se à mesa do rei. Só depois lhe perguntam quem é. E, quando decidem levá-lo de barco até Ítaca, conhecem o preço: Posêidon transformará em pedra um de seus navios justamente por escoltarem estrangeiros. Ainda assim, ordenam a viagem. No retorno, à vista do porto, a embarcação é petrificada. Então, cessam as escoltas.
Na missa do PopRuaJud de junho de 2026, sob as tendas do Centro Pop, o Padre Ernesto recordou uma mulher de trinta anos, muito magra e debilitada, que, no primeiro mutirão, em 2022, nos pedira com insistência ajuda para voltar à sua cidade, no Mato Grosso, após anos vagando sem rumo. Feita a avaliação médica para a viagem e restabelecido o contato com a família, decidimos ajudá-la, sem julgamentos sobre o passado. Compramos a passagem e a deixamos partir. Quatro ou cinco dias depois, soubemos que havia morrido, entre os seus, e não sozinha a mil quilômetros de casa.
Gostaria de estar certo ao concluir que somos um pouco feácios, que acolheram Ulisses e o escoltaram; e um pouco Leucoteia, que não podia salvá-lo da morte, mas preservou o que ainda lhe restava de mais precioso: o desejo ardente de voltar para casa. Num ponto, porém, fomos além. Quando o navio virou pedra, encerraram as escoltas. Nós não. Continuamos a acreditar que vale a pena ajudar a voltar para casa quem assim desejar, sempre com os cuidados que cada caso exige, e acolher com respeito e dignidade quem fica, muitas vezes tão vulnerável quanto o náufrago de Homero. No dia 15 de novembro de 2026 faremos o décimo quarto mutirão.
EVANDRO PELARIN
Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras.