A ficção das cores
Nessa viagem decolores, lírica e inspiradora, encontro razões para rever o universo poético que enxergava e que acreditava ser comum e preciso

Passei grande parte da minha vida pensando que o que meus olhos viam correspondia à realidade. Doce ilusão. Pelas minhas lentes, enxergava o mundo das cores como se fosse restrito ao que minha visão me mostrava. E foi assim por tanto tempo que, na minha concepção, o universo em toda sua complexidade se revelava unicamente ao que meu olhar percebia. Meu cristalino através de suas coreografias, assim como acontece com nossas ideias, me tapeou por muito tempo.
Eis que, submetida à correção da gelatinosa lente, meu novo e recente modo de contemplar o momento me assustou. Confuso demais. Já não sei se o colorido atual corresponde ao real ou ao imaginário. Perplexa, tento me adaptar aos novos matizes. Diante do desconforto visual, considero a ocasião para refletir sobre as diferentes perspectivas que a vida nos traz. Será preciso a mudança de tonalidades executada pelo cérebro para que nosso intelecto identicamente reaja à imutável forma de pensarmos? Ver além dos padrões? Assim como “Para ver as cores do mundo”, do Planet Hemp? Ou as cores do mundo do To Fly e não veja numa flor apenas uma flor?
Nessa viagem decolores, lírica e inspiradora, encontro razões para rever o universo poético que enxergava e que acreditava ser comum e preciso. Olho-me no espelho e penso perceber a verdade através das rugas que os óculos artificiais me escondiam. A cor da pele e dos olhos pequenos, que acredito agora serem reais, serão? Até quando, não sei. Nessa perspectiva, medito: tudo que vi até hoje, as pessoas, a rua, as flores, os pássaros, o beija-flor que aparece de vez em quando em minha janela ou o bem-te-vi, grande bisbilhoteiro dos meus alegres amanheceres, que me acorda todos os dias dizendo que me viu, corresponderiam à verdade? Bendita incerteza que me faz ver agora a vida sob outra ótica. Como tudo isso é muito recente, creio que o “amarelo argirol” que enxergo, do mesmo modo, o preto que é azul-marinho, talvez tenham motivações genéticas ou sejam elas passageiras ou frutos da minha imaginação. Não importa. O que realmente chama minha atenção, que abala minhas antigas convicções, são as imprecisões dos mundos físico e mental, consequentemente, a pobreza e a segurança intelectuais de enxergar e sentir de uma forma só. Deste modo, grande parcela da humanidade tem nessa perspectiva a segurança de que, unicamente o que veem é impar e verdadeiro. Não os critico, porque por muito tempo fiz o mesmo sob as lentes enganadoras do meu olhar.
A recente coloração do universo me possibilitou novas nuances, diferenças sutis de tons e inúmeras possibilidades de ver o outro e repensar minhas posições frente à vida.
Não obstante, ao olhar o entardecer vermelho do sol poente da boca do sertão ou o azul do céu de anil, sei que essas gradações são autênticas, tanto quanto o cartão vermelho aplicado justamente ao atacante do EEUU, Folarin Balogun, a falsa cegueira da FIFA, para atender à prepotência de Trump, o homem cheeto, agente laranja que se considera o rei do mundo.
Não seria do gado?
MERLI DINIZ
Professora, advogada, poeta e cronista. Vice-coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ª Subseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.