A distopia do poder permanente
Paradoxalmente, a Doutrina Monroe, formulada há cerca de duzentos anos como promessa de proteção hemisférica, colapsa simbolicamente

A trajetória da política externa dos Estados Unidos ao longo do século XX e início do XXI combina hegemonia econômica, supremacia militar e um discurso recorrente de defesa da democracia liberal. Contudo, a sucessão de intervenções armadas, sanções econômicas, pressões diplomáticas e ambições territoriais explícitas revela uma engrenagem de poder que se aproxima menos de uma ordem liberal internacional e mais de uma distopia em funcionamento — aquela em que a violência deixa de ser exceção e organiza o cotidiano da política.
Nas distopias clássicas, como “1984”, de George Orwell, o Estado legitima a coerção permanente em nome da segurança, da estabilidade e da proteção contra inimigos contínuos. A política externa norte-americana tem reproduzido esse padrão ao naturalizar guerras preventivas, mudanças de regime, ocupações indiretas e operações punitivas apresentadas como técnicas, necessárias e inevitáveis. A retórica da ordem encobre, assim, a banalização do sofrimento e o esvaziamento progressivo das normas internacionais.
Com a recente intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, na qual se observam ataques diretos, captura de autoridades e controle de ativos estratégicos, repete-se o padrão desse quadro mais amplo. Não se trata de um episódio isolado ou regional, e sim, de mais um movimento em uma lógica expansiva que opera à margem do direito internacional, tensionando instituições multilaterais e corroendo o princípio da soberania estatal. A América Latina, nesse contexto, volta a figurar como espaço de experimentação da força, não como exceção histórica, mas como continuidade.
Essa lógica ficou evidente quando a Casa Branca cogitou publicamente a aquisição da Groenlândia, território ligado a um aliado da OTAN, provocando reações inéditas na Europa e a admissão do risco de conflito entre aliados.
O aspecto mais perturbador desse processo, contudo, manifesta-se no plano interno. A morte de uma cidadã americana durante uma operação conduzida por agentes da polícia alfandegária simboliza um ponto de inflexão institucional: o poder que se projeta sem freios para fora retorna para dentro, voltando-se contra os próprios cidadãos em nome da fronteira, da ordem e da segurança.
Se em 2020 a morte de George Floyd expôs a violência estatal sem produzir a inflexão estrutural esperada, em um país marcado por profundas desigualdades raciais, o episódio recente desloca o debate para outro patamar. Ele atinge diretamente o imaginário de proteção civil associado ao próprio Estado e pode ser compreendido como mais um estilhaçamento da promessa de segurança consolidada após os ataques terroristas de 11 de setembro, há vinte e cinco anos.
Paradoxalmente, a Doutrina Monroe, formulada há cerca de duzentos anos como promessa de proteção hemisférica, colapsa simbolicamente. Ao longo do século XX, sobretudo na Guerra Fria, deixou de ser princípio defensivo para tornar-se método: vigiar, disciplinar e punir, dentro e fora das fronteiras. Como observou Michel Foucault, o poder moderno opera pela normalização da exceção — mecanismo que hoje se radicaliza. A violência antes aplicada para além das fronteiras retorna ao centro do sistema e organiza também a vida interna. A distopia contemporânea, assim, não é periférica: ela se estrutura no coração do poder.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados