A Copa do Mundo, na era do rádio
Motivo de orgulho para os radiófilos rio-pretenses foi o fato de que um dos narradores esportivos locais – José de Alencar, da Independência – ter sido convidado a viajar à Inglaterra para integrar a equipe de uma das grandes emissoras presentes ao evento

A primeira – e também a última – Copa Mundial de futebol que acompanhei exclusivamente pelo rádio foi a de 1966, a da Inglaterra, vencida pelos donos da casa e com um desempenho sofrível do Brasil, que tinha vencido as duas anteriores, no Chile e na Suécia.
Em 66, eu tinha apenas dez anos de idade, mas pude me decepcionar pelo mau desempenho da bicampeã Seleção Brasileira, eliminada logo na primeira fase.
Mas, apesar disso, a cidade vestiu-se de Copa ao som do rádio esportivo, uma época em que a imperfeição da recepção radiofônica era compensada pelas transmissões em cadeia, com as emissoras locais (Independência, Difusora e Piratininga), conectadas às grades Bandeirantes e Tupi. Quem viveu naquele tempo se lembra da célebre “cadeia verde-amarela, norte-sul do Brasil”, notabilizada pelas transmissões da Rádio Bandeirantes de São Paulo.
Em alguns pontos do Centro da cidade — como na Praça Rui Barbosa, mais ou menos em frente ao Cine Rio Preto, algumas empresas instalavam grandes placas com a tabela dos jogos e alto-falantes reproduzindo as transmissões das partidas do Brasil.
Havia também redutos tradicionais de pessoas interessadas em futebol — como a Charutaria do Pilão, na Bernardino de Campos, e o Bar Ao Posto Dois, do Abílio, na General Glicério, quase na esquina com a Jorge Tibiriçá, onde instalavam-se aparelhos potentes de rádio e também colocavam as tabelas dos jogos, cujos resultados eram adicionados assim que as partidas se encerravam.
Rio Preto contava, na época, com pouco mais de 100 mil habitantes, o Rio Preto EC ainda mandava seus jogos no Fortim da Vila, como os torcedores gostavam de chamar o estádio Victor Brito Bastos, na Redentora, mas o Riopretão já estava em obras e seria inaugurado dois anos depois. Lembro-me até hoje de ter ouvido um dos jogos da Copa durante uma visita que fiz com meu pai às obras do estádio, supervisionadas pelo diretor Farid Maluf.
O templo do futebol rio-pretense era ainda o estádio Mário Alves Mendonça, no alto da Vila Santa Cruz, onde o serviço de alto-falantes do Samy Gorayeb informava, durante os jogos do América, os resultados das demais partidas do Campeonato Paulista, a renda dos jogos do América e as substituições nas equipes.
- Massas Ymas informa:…
Motivo de orgulho para os radiófilos rio-pretenses foi o fato de que um dos narradores esportivos locais – José de Alencar, da Independência – ter sido convidado a viajar à Inglaterra para integrar a equipe de uma das grandes emissoras presentes ao evento (já me confundo se a Tupi ou a Bandeirantes) e transmitir partes de alguns jogos para todo o Brasil, diretamente de Londres.
A Copa seguinte, a de 1970, no México, já não tinha mais o rádio como protagonista, porque a TV começava a dar as cartas, mas o charme dos radinhos de pilha, dos aparelhos históricos da Semp, e o encanto dos gritos de gol insuperáveis e a cadeia verde-amarela vão ficar para sempre incrustados na ternura e na sinceridade do nosso cantinho da saudade, para não perder a chance de repetir um velho bordão do narrador Fiori Gigliotti durante suas transmissões esportivas pela Rádio Bandeirantes.
JOSÉ LUÍS REY
Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos.